I. Gostaríamos de partir do principio, e consideramos isto inquestionável, que a obra de A. Kardec seguiu os rigores metodológicos de sua época. Ele, um cientista social erudito e rigoroso, dotado de grande capacidade, em sua obra doutrinária seguiu os mesmos princípios teórico-metodológicos das obras acadêmicas assinadas com seu nome de batismo. Redundante, mas sempre necessário lembrar que estes trabalhos de juventude, diga-se, alcançaram um imediato e grande reconhecimento entre seus pares. Assim, se aceitarmos que o Espiritismo foi codificado, repetimos, dentro do padrão cientifico de sua época, já podemos dar um passo além e tentar analisar se ele envelheceu. E, se sim, em quais aspectos isso ocorreu? Antes de respondermos temos que deixar claro algumas coisas: Esta palavra: envelheceu, do modo como foi utilizada aqui, com certeza não é a mais correta, eu a repeti para fins didáticos. O que aconteceu foi que, de modo geral, ocorreu uma crescente transformação teórico-metodológico que, por critérios extremamente difíceis de se definir, podem de forma grosseira, neste artigo, serem chamados de novos (e os que foram substituídos de velhos). Para o leitor menos familiarizado com as teorias do conhecimento, pode-se colocar o mesmo raciocínio de outra forma: se formos absolutamente ortodoxos e, por assim dizer, fechados aos paradigmas já emergentes, e forçoso dizer que, sob os aspectos operacionais (metodológicos) – e, naturalmente, estritamente acadêmicos –, o Espiritismo, como tudo que foi produzido em sua época, sofreu com as novas teorias. Assim, é somente neste sentido bem especifico que entendemos estas noções. Por outro lado, se formos “mais abertos” as mudanças, podemos com certeza, já afirmar que: o Espiritismo em seu bojo teórico, como alguns pensadores defendem brilhantemente (e nos encontramos entre estes), apresenta uma atualidade, impressionante. Voltaremos a isso mais adiante. Aqui fazemos uma pequena lembrança à imensa “abnegação” intelectual do mestre de Lion ao deixar uma reconhecida carreira exclusivamente acadêmica para dar sua grande contribuição para a humanidade. Ficamos questionando... Quantos de nós faríamos o mesmo? À época de Kardec (bem antes da crise dos racionalismos), o positivismo era o paradigma dominante, embora se deva dizer que, este positivismo não era praticado de forma uniforme. Acreditava-se no progresso humano, na evolução por assim dizer (mesmo antes de K. Marx), na cognição humana, pensava-se que a ciência iria solucionar todos os problemas do homem, por “fim” acreditava-se na razão. Aqui já cabe pontuar que o empirismo, aliado do positivismo da época de Kardec, é, e tem sido ou foi, repensado (não disse aceito), nos moldes atuais, com seriedade, por homens da estatura de Karl Popper, Ernest Gellner, William James e John Dewey, tomando a forma de neopositivismo para alguns filósofos. Desta forma, e voltando ao raciocínio do início do primeiro parágrafo, consideramos que seria ignorar os fatos e a brilhante biografia intelectual de Kardec não aceitar que, em sua codificação, ele aplicou os conceitos científicos da época, que, como já introduzido, estão sendo revisitados atualmente. Devemos ainda trabalhar com o fato de que a obra kardecista, infelizmente em nossa opinião, com o passar das décadas, assumiu mais e mais um caráter de não ciência no âmbito que, nesse sentido, realmente importa: o acadêmico. Sabemos que muitos não gostam de serem lembrados disto. Hoje, desconfiamos que o Espiritismo como ciência, tenha sido levado mais a sério à época de sua elaboração do que atualmente, apesar dos brilhantes esforços feitos em todo o mundo por uma gama de cientistas que ja trabalham com a possibilidade da existência ou, até mesmo, com os “mesmos” critérios teóricos de Kardec em sua base espistemológica. Hoje, sabe-se que todas as áreas do conhecimento humano do século XIX “envelheceram” mais ou menos, e sobrevivem em termos teóricos pior ou melhor. Aliás, algumas áreas que detinham o estatus de ciência, hoje, encontram-se ameaçadas de perdê-lo. – Estamos pensando na Psicologia, por exemplo, e em seus “embates” com a Psiquiatria. Sendo ainda mais abrangente, hoje, todas as disciplinas, em última instância teórica, estão frágeis e, essa crise de racionalidade, pode ser vista por vários lados. Assim, se, a obra de Kardec “já estando” reconhecida como ciência aos moldes da época de D. Pedro II, “envelheceu”; isso ocorreu porque tudo “envelheceu”. Guardando as diferenças transparadigmáticas; como os marxistas, os kardecistas devem ter a mesma visão, ter Kardec como base, e não como fim em si mesmo, o que aliás, o magnífico codificador, deixou bem claro. Diante de tudo o que foi dito fica outra questão fundamental até aqui apenas introduzida, que agora será observada com maior acuidade: até que ponto a obra de Kardec estava além de seu tempo? Seria fácil afirmar, – e verdadeiro –, que devido a já supracitada crise dos racionalismos que vivemos, tudo hoje em dia pode ser estudado cientificamente, desde que haja um método academicamente aceito. No entanto, sem recorrer a essa avenida teórica, acreditamos ser possível enquadrar o Espiritismo, perfeitamente, em um modelo teórico atual. A “questão correta” a ser debatida e ampliada é essa, indo muito além da simplória afirmação de alguns antagonistas que não estudam muito: espiritismo não é ciência e sim religião. Já existem trabalhos que buscam esse enquadramento. A obra, ainda em construção de S. Chibeni, por exemplo, lança grandes luzes nesse sentido. Esse autor, tomando como uma de sua bases, o brilhante filósofo Imre Lakatos, defende que o Espiritismo já foi codificado por Kardec com todas as características metodológicas de um atual programa de pesquisa completamente exeqüível e academicamente aceito. Em seu bojo hipotético o Espiritismo, teria linhas mestras bem delimitadas e claras, assim como Kardec, já sabia, no seu século, da necessidade de um conhecimento ser heuristicamente progressivo. Assim, se S. Chibeni estiver correto, como nós defendemos que está, todo o corpo paradogmático espírita guarda uma certa atualidade impressionante. II. Um pensador e poeta, disse que, nesta era de crise das racionalidades os pensadores do saber quando refletem sobre o conhecimento se assemelham a Alice (da obra: Alice no País das Maravilhas) quando se vê de frente com o gato de Cheshire e trava o seguinte diálogo: – Podia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui? Nesta estória, nos parece que se os estudiosos espíritas se recusarem a dialogar com o mundo acadêmico, infelizmente, estarão (como os pensadores do saber) no papel de Alice. Alguns defendem que o movimento não esteja se dedicando tanto a sua parte cientifica como orientou Kardec (aqui deixo ao leitor esta questão). Quais seriam os caminhos necessários a solução deste possível impasse? Nós, que somos espíritas, e compreendemos seus postulados, sabemos do universo interdisciplinar e transdiciplinar que emerge solidamente de sua singular base tripartite. Sabemos da imensa necessidade de elevação moral de nossa humanidade, mas... Como traduzir isso em termos academicamente aceitos de modo que, seja possível, uma aproximação mais rápida entre um conhecimento (que luta para seu próprio reconhecimento como tal) e as outras áreas já acadêmicas? Segundo ainda o mesmo pensador supracitado, a humanidade uma ou duas vezes se transformou. Thomas Kuhn também discorre sobre isso de um ponto de vista epistemológico em sua obra: A Estrutura das Revoluções Científicas. Nós, espíritas, acreditamos que uma revolução moral está vindo e estamos convictos de que será acompanha por uma cientifica sendo estas, sobretudo, complementares. Nos parece que as dificuldades inerentes a realização deste processo foram vistas com extrema clareza por Thomas Kunh quando ele afirmou que: (...) Cientistas muitas vezes agem como se estivessem mais interessados em impedir o progresso científico do que em promovê-lo (...). Ele se torna mais claro ainda quando escreveu que: (...) Essa substituição não ocorre de um modo rápido; o período de crise, caracterizado pela transição de um paradigma a outro, pode ser bastante longo. É compreensível que assim seja, já que cada um dos paradigmas estabelece as condições de cientificidade do conhecimento produzido no seu âmbito, e essas condições podem ser consideradas ridículas, triviais ou insuficientes, pelos defensores do velho paradigma, ou seja, os cientistas claramente comprometidos e educados à luz do paradigma anterior, que tudo fazem para impedir a substituição (...) Nesse sentido, encontramos com precisão cirúrgica, se assumirmos que este grande pensador está correto, um dos grandes desafios do Movimento Espírita: lutar para acelerar este processo de mudança, fazendo com que o mundo científico aceite a existência do plano espiritual. Cremos que fazer com que o Espiritismo consiga dialogar novamente com as academias seja um dos primeiros passos. Somente é possível vislumbrar as magníficas altitudes que alcançaremos quando os estudos espíritas forem plenamente aceitos como acadêmicos. Kardec, com certeza, sabia do tamanho do impacto desta revolução, da imensa necessidade de sua realização e construiu, com extrema perfeição, a base que permitirá essas mudanças. Em nossa opinião e, como já observado (e teorizado) por S. Chibeni, essa base jamais estará superada – temos outros motivos em paralelo com os deste pensador que aqui não discorremos. Até que ponto nós estamos lutando para que o Espiritismo seja aceito como um estudo acadêmico, e se, este processo de aceitação do Espiritismo como “saber cientificamente aceito”, está perto de seu término, é possível que os de fora do movimento que, por sua vez, se encontram dentro das academias saibam responder melhor do que nós. São eles que irão ampliar no final suas convicções. No entanto, nos parece que ninguém está em condições de negar que, cada vez mais, a nossa pacífica luta também se encontra sendo travada dentro das academias, no território deles... E isso senhores, já diz muita coisa. --------------------------------- Epistemologia é um ramo da filosofia que estuda a origem, estrutura, os métodos e a validade do conhecimento científico, enfocando mais os critérios de cientificidade e normatividade conjuntural elaboradas neste âmbito. Sobre paradigma pensamos que, definir este conceito basicamente, seja dizer que ele representa os conteúdos de uma visão de mundo. Isso significa que as pessoas que agem de acordo com os axiomas de um paradigma estão unidas, identificadas ou simplesmente em consenso sobre uma maneira de entender e de agir a respeito de todo o mundo do conhecimento (na totalidade de seus aspectos). Como crise dos racionalismos o leitor deverá entender: uma crise epistemológica, em que se anuncia a morte da ciência, da história e da filosofia; em que se desconstrói o sujeito, estabelece-se um vazio ético, e reduz-se toda verdade a mero discurso; quando a sombra do nada, a sombra nietzschena, a angústia e a sensação de impotência se estendem no mundo. ----------------------------- Bibliografia: CARDOSO, Ciro Flamarion. História e paradigma rivais. In: Cardoso & Vainfas, 1997. Narrativa, sentido, história. Campinas, SP: Papiros, 1997. EVANGELISTA. João E. Crise do marxismo e irracionalismo pós-moderno. São Paulo, editora Cortez, 1992. KHUN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975. LIMA, Raymundo de. Educação no Brasil: o pensamento e atuação de José Mário Pires Azanha. 2005. 296f. Tese (Doutorado em Educação)–Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. LÖWY, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchausen. São Paulo: Busca Vida, 1987. MAGEE, B. As idéias de Popper. São Paulo: Cortez, 1989. POPPER, K. R. A lógica da Pesquisa científica. [trad. Leônidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota]. São Paulo: Cultrix, 1972. _________. Lógica das Ciências Sociais. Rio de Janeiro - Brasília: Tempo Brasileiro e Ed. Universidade de Brasília, 1978. _________. Um mundo de propensões. Lisboa: Fragmentos, 1988. HOBSBAWN, E. Era dos extremos, o breve século XX, São Paulo, Companhia das Letras, 1995. HOBSBAWN, E. Sobre História, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
– Isso depende muito, do lugar para onde você quer ir – disse Gato.
– Não me importa muito onde... – disse Alice.
– Nesse caso não importa para onde você vá – disse o Gato.
– Contanto que eu chegue a algum lugar – acrescentou Alice como explicação.
– É claro que isso acontecerá – disse o Gato – desde que você ande durante algum tempo.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O Gato de Cheshire
sábado, 25 de abril de 2009
Grande Mestre de Xadrez Falecido Enfrenta Victor Korchnoi
O homem na foto acima à esquerda (anexo) é, é Geza Maroczy, um enxadrista Húngaro, que já foi o terceiro no rank mundial (por volta de 1900), e que morreu em 1951. Na direita um renomado grande mestre da atualidade, Victo Korchnoi que travou disputas memoraveis com Anatoly Karpov e por muitos anos o numero 2 do Rank.
Recentemente (2006) foi publicado no Jornal da SPR britânica, um artigo de Wolfgang Eisenbeiss and Dieter Hassler titled, "An Assessment of Ostensible Communications with a Deceased Grandmaster as Evidence for Survival." ("Uma avaliação de comunicações ostensivas com um falecido grande-mestre como uma evidência para a sobrevivência"). A estória descrita, acredito, posiciona como a mais importante já registrada em 150 nos da história da pesquisa da sobrevivencia da alma humana após a morte.
Em resumo, Wolfang Eisenbeiss, Ph.D. pegou uma ideia de um conhecido. Eisenbeiss arranjou um medium, Robert Rollans, para viabilizar a competição. Rollans não sabia nada sobre xadrez e era tido por Eisenbeis como um indivíduo confiável.
Dr. Eisenbeiss, um entusiasta enxadrista amador, passou a procurar um Grande-mestre aqui do plano terreno, que aceitasse enfrentar um Grande-mestre do mundo dos espiritos. Mesmo com o risco do ridículo, Korchinoi aceitou o desafio. Então, Eisenbeiss pediu que o espirito-guia de Rollans encontrasse um Grande-mestre do mundo espiritual que se dispussesse a um confronto com um Grande-mestre do Plano-Terreno. Após uma busca, o espírito-guia de Rollans informou através de escrita automática (ou psicografia mecanica), que Maroczy havia aceitado o desafio do lado de lá.
O jogo foi realizado através de carta e começou em 1985. Devido a Korchnoi estar frequentemente viajando e competindo, a partida foi jogada em um pouco mais de 7 anos. Maroczy, que jogou num estilo "à moda antiga", abandonou após 47 jogadas. Rollans morreu 3 semanas após o termíno da partida.
Korchnoi fez o seguinte comentário sobre a qualidade dessa partida quando estava no 27o. lance:"Durante a fase de abertura Maroczy mostrou fraqueza. Ele jogou à moda antiga. Mas eu confesso que minha ultima jogada não foi muito convincente. Eu não estou certo que irei vencer. Ele compenssou as falhas da aberturas com um forte fim de jogo. No fim de jogo a habilidade de um jogador aparece e meu oponente joga muito bem."
Devido ao elemento tempo, céticos podem facilmente questionar aspectos do jogo em si. Mas Eisenbeiss também fez questionamentos a Maroczy sobre sua vida pessoal e torneios passados que forneceram muitas evidencias de comunicação do espírito.
Pelas mão de Rollans, Maroczy escreveu 38 páginas de informações biográficas em resposta à questões feitas por Eisenbeiss. Eisenbeiss então obteve os serviços de Laszlo Sebestyen, um historiador e perito em xadrez, para encontrar e verificar as informações fornecidas. Das 92 indicações feitas por Maroczy, Sebestyen, que pesquisou em registros de bibliotecas e entrevistou dois filhos e um primo de Maroczy, então pode confirmar 85 delas como factual. As 7 restantes podem ser fato, mas nenhum registro foi encontrado para confirmá-los.
Uma particular evidencia trocada entre Eisenbeiss e Maroczy (através de Rollans, claro) teve haver com um torneio em 1930. Eisenbeiss, que tinha encontrado um registro de uma partida, perguntou àMaroczy sobre um adversário que ele enfrentou, um italiano chamado Romi. Maroczy respondeu que nunca conheceu ninguem por esse nome, mas que ele enfrentou um homem chamado "Romih". Mesmo que os registro históricos mostrasse o nome como "Romi", Eisenbeiss encontrou a programação do torneio de 1930, em que o nome estava escrito como "Romih." Em algumas ocasiões as respostas eram transmitidas em idioma desconhecido do medium, por exemplo o Húngaro, lingua nativa de Maroczy.
Korchinoi em seu website observou: "O elemento humano, a falha humana e a [nobility] humana - estas são as razões pelas quais uma partida de xadrez são vencidas ou perdidas". Nesse caso, entretanto, pode ser muito bem ser dito que uma falha "fora de moda" do espirito que deu a vitória a Victor Korchinoi.
Veja a partida: http://www.winner.com.py/feparaj/PaginaNueva/Zenon/2006/20050417%20Articulo%20112/kortchnoi_maroczi.htm
Texto compilado com base nas seguintes fontes:
http://metgat.zaadz.com/blog/2007/5/the_ghost_v_viktor_the_terrible
http://jeff.zaadz.com/blog/2006/4/dead_chess_grandmaster_plays_victor_korchnoi
http://www.winner.com.py/feparaj/PaginaNueva/Zenon/2006/20050417%20Articulo%20112/Partida%20Memorable%20Kortchnoi_Maroczi.htm
Leia Mais…
sexta-feira, 24 de abril de 2009
CUUE - Controle Universal do Ensino dos Espiritos
DEBATE DA LISTA EXISTEM-ESPIRITOS!?
KARDEC disse:
Essa verificação universal constitui uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. Aí é que, no porvir, se encontrará o critério da verdade. O que deu lugar ao êxito da doutrina exposta em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns foi que em toda a parte todos receberam diretamente dos Espíritos a confirmação do que esses livros contêm. Se de todos os lados tivessem vindo os Espíritos contradizê-la, já de há muito haveriam aquelas obras experimentado a sorte de todas as concepções fantásticas. Nem mesmo o apoio da imprensa as salvaria do naufrágio, ao passo que, privadas como se viram desse apoio, não deixaram elas de abrir caminho e de avançar celeremente. É que tiveram o dos Espíritos, cuja boa vontade não só compensou, como também sobrepujou o malquerer dos homens.
Os princípios acima não resultam de uma teoria pessoal: são conseqüência forçada das condições em que os Espíritos se manifestam. E evidente que, se um Espírito diz uma coisa de um lado, enquanto milhões de outros dizem o contrário algures, a presunção de verdade não pode estar com aquele que é o único ou quase o único de tal parecer.
(...) A opinião universal, eis o juiz supremo, o que se pronuncia em última instância. Formam-na todas as opiniões individuais. Se uma destas é verdadeira, apenas tem na balança o seu peso relativo. Se é falsa, não pode prevalecer sobre todas as demais. Nesse imenso concurso, as individualidades se apagam, o que constitui novo insucesso para o orgulho humano.
De: Eduardo Lima
Para: existem espíritos
Enviadas: Quinta-feira, 23 de Abril de 2009 14:27:07
Assunto: RE: Res: Res: Res: [existem-espiritos!?] Re: Espiritismo na Holanda e outras coisas
...vou escrever de novo.. : o controle nao é um controle da forma como vc deseja.. ele NAO IMPEDE NADA...e MUITO MENOS FOI CRIADO COM ESSE OBJETIVO... RESUMINDO .. ele nao funciona do modo com vc quer.. ELE É APENAS UM CONjUNTO DE "CRITERiOS SUBJETIVOS" (deontologicos) QUE PODEM SER UNIVERSALMENTE APLICADOS.. espiritos sempre irao falar o que desejaram .. fui claro? atenção VITOR: deontologico significa que DEVE ser.. NAO QUE OBRIGATORIAMENTE TEM QUE SER.. ASSIM SENDO ATENÇÃO ,.. se um espirito dizer que está vivo o que não existe reencarnação isso NAO TEM NADA a ver com o controle funcionar ou não.. NADA
grandes abraços
Eduardo
Vitor Moura escreveu:
O controle deveria filtrar/barrar mensagens espúrias. É o que chamamos "ponto fora da reta". Quanto mais mensagens iguais, mais teríamos certeza de que aquela informação é verdadeira, ou, pelo menos, de algum valor. Assim, se 1 centena de médiuns diz que Deus existe, e apenas 2, os da Holanda, dizem que não existe, então pelo Controle consideraríamos as mensagens dos médiuns da Holanda como espúrias. Faria parte da Filosofia Espírita a existência de Deus.
Qual o problema disso? Falácia ad numerum.
Mais que isso, historicamente, vemos que esse Controle não funciona. Kardec afirma ter recebido centenas de comunicações idênticas referentes à civilização marciana e jupiteriana, tanto que a Pluralidade dos Mundos Habitados faz parte da Filosofia Espírita. Hoje essas informaçãos, em vez de confirmadas, são totalmente desacreditadas.
Entendeu agora, Eduardo, porque eu critiquei você por ter colocado aquelas palavras na minha boca? Eu NUNCA diria que o Controle não contralava nada. Ele controla. Só não funciona.
Mais uma coisa: o Controle não é o único critério usado por Kardec. Ele também usa o Critério da Lógica e do Bom Senso e o Critério da Linguagem Digna e Nobre. No caso das mensagens com as civilizaçãoes marcianas e jupiterianas, Kardec considerou que tais mensagens não feriam a Lógica e o Bom Senso. E como tais mensagens vinham de Espíritos com uma Linguagem Digna e Nobre, passaram por esse filtro também.
Então todos esses Critérios não impediram a ocorrência de um falso positivo. De fato, o método criado por Kardec, composto por esses 3 critérios, nada nos garantiu sobre a realidade do mundo espiritual. Não temos uma informação fidedigna sequer. Nada foi confirmado pelas pesquisas parapsicológicas.
Há, na verdade, mais um Critério: o Tempo. Hoje essas mensagens não passariam pelo Critério da Lógica e do Bom Senso. Mas, como vimos, esse Critério pode demorar para filtrar as mensagens espúrias...
Um abraço.
Vitor
Eduardo disse:
vc foi clarissimo na exposição de suas idéias nestes 2 ultimos emails.. e foram bem argumentados com base inclusive em textos espiritas, joia.. mas.. veja bem.. A doutrina sim propõe leis universais, mas.. leis que atuam dentro da pluralidade da vida .. ou seja.. alguem pode até nao pagar um crime.. "sofrendo", mas amando mais o proximo.. as possibilidade são infinitas.. mas esta infinitude nao derroga as leis .ESSE é o entendimento espírita. . e por ai vai..
Ja sob o controle.. tenho que insistir que vc ainda não pegou o espirito da coisa (irresistivel trocadilho).. a unica coisa que posso falar.. e que vc depois de morto,, assim como eu.. e todos teremos "total liberdade" para falar o que desejar...e pensar o que quizer.. Dezenas de espiritos aqui ou na Holanda ipensam que estao vivos..pensam que nao ha reencaranção.. até tem indios que acham que estao em uma tribo piratas, antigos romanos .
E estes espiritos se manifestam diaramente nos centros espiritas e falam sobre estas ideias "equivocadas" e lhe asseguro que tudo isto esta de acordo com o controle universal.. e alias.. os doutrinadores o tendo com base.. sabem lidar com toda esta imensidade de situações.. pois isso foi explicado por Kardec..
BEM.. é isso..
em breve volto.
grandes abraços
Eduardo
CIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA
Prof. : Lúcio Jorge Hammes
1 Introdução
1.1 Objetivo
Oportunizar o debate sobre a filosofia de Imre Lakatos com o
aprofundamento de questões relacionadas ao conhecimento objetivo, um dos
enfoques predominantes na filosofia da ciência contemporânea, com ênfase
nas análises das práticas científicas para a revisão e o aprofundamento
das questões tradicionais da epistemologia e da ontologia, critérios que
presidem as mudanças cientificas para o debate entre fundacionismos e
relativismos epistemológicos.
Com esta aula proponho:
- Apresentar a posição de Imre Lakatos sobre a ciência e a
pseudociência, temática central da filosofia de Lakatos.
- Debater sobre questões que mobilizaram os filósofos da ciência no
início do séc. XX (análise lógica da linguagem, fundamentos empíricos da
ciência, critério de significação cognitiva), mostrando como suas
soluções promoveram a revisão e a revitalização da tradição
fundacionista na epistemologia.
- Analisar as objeções de Popper ao programa do empirismo lógico e o
debate que se seguiu entre o autores acerca da possibilidade de as
mudanças científicas serem presididas por decisões e critérios racionais.
- Promover a compreensão dos problemas que mobilizam as reflexões
filosóficas contemporâneas sobre a ciência (subdeterminação da teoria
pelo dados, progresso científico, incomensurabilidade etc.), que
constituem uma agenda de discussão em grande parte herdada da tradição
historicista inaugurada por Kuhn.
1.2 AUTOR
Imre Lakatos, nascido Imre Lipschitz em 1922 na Hungria, faleceu em 1974
em Londres. De família judia, conseguiu sobreviver à perseguição nazi
alterando o seu nome para Imre Molnár. Durante os anos da guerra
graduou-se na Universidade de Debrecen em matemática, física e
filosofia. Depois da guerra, alterou o apelido para Lakatos. Trabalhou
no Ministério Húngaro da Educação, mas teve problemas em acatar ordens
das autoridades russas pelo que foi preso em 1950, por três anos.
Lakatos passou a viver de traduções. Em 1956, aquando da revolução
húngara, abortada pelos Russos, fugiu para Viena e daí para Inglaterra,
onde se doutorou em Filosofia pela Universidade de Cambridge. Escreveu
diversos artigos primeiro sobre filosofia da matemática, depois sobre
filosofia da ciência, mas sempre ilustrados com estudos de casos históricos.
1.3 Ciência e pseudociência
Uma pseudociência é qualquer tipo de informação que se diz ser baseada
em fatos científicos, ou mesmo como tendo um alto padrão de
conhecimento, mas que não resulta da aplicação de métodos científicos.
Motivações para a defesa ou promoção de uma pseudociência variam de um
simples desconhecimento acerca da natureza da ciência ou do método
científico,a uma estratégia deliberada para obter benefícios financeiros
ou de outra natureza. Algumas pessoas consideram algumas ou todas as
formas de pseudociências como um entretenimento sem riscos. Outros, como
Richard Dawkins, consideram todas as formas de pseudociência perigosas,
independentemente destas resultarem ou não em danos imediatos para os
seus seguidores.
1.3.1 Classificação de Pseudociências
Tipicamente,as pseudociências falham ao não adoptar os critérios da
ciência em geral (incluindo o método científico), e podem ser
identificadas por uma combinação de uma destas características:
Ao aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental;
Ao aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos;
Por deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os
seus resultados;
Ao aceitar verdades que violam falseabilidade; ou
Por violar a Razão de Occam (o princípio da escolha da explicação mais
simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis); quanto pior
for a escolha, maior será a possibilidade de errar.
Pseudociências são distinguíveis de revelações, teologias ou
espiritualidade pois elas dizem revelar a verdade do mundo físico por
meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método
científico). Sistemas de pensamento que se baseiam em pensamentos de
origem "divina" ou "inspirados" não são considerados pseudociência se
eles não afirmam serem científicos ou não vão contra a ciência.
1.3.2 O Problema da Demarcação
Depois de mais de um século de diálogo activo, a questão do que marca as
fronteiras da ciência permanece indefinida. Como consequência a
definição do que constitui uma pseudociência continua a ser controversa.
Há um consenso razoável em certos casos. O critério da demarcação é
tradicionalmente ligado a uma filosofia da ciência ou a outra. O
Positivismo lógico, por exemplo, expõe uma teoria do significado que
estabelece que apenas as assertivas sobre observações empíricas são
significativas, efectivamente definindo que assertivas que não são
derivadas desta forma (incluindo todas as assertivas metafísicas) são
sem significado. Mais tarde, Karl Popper atacou o positivismo lógico e
introduziu o seu próprio critério de demarcação falseabilidade. Este,
por sua vez, foi criticado por Thomas Kuhn, e ainda pelo seguidor de
Popper Imre Lakatos que propôs o seu próprio critério de demarcação que
distingue entre programas de pesquisa progressivos e degenerativaos.
Veja em Problema da demarcação um artigo completo.
1.3.3 Exemplos de Pseudociência
Exemplos de campos de pesquisa que muitos consideram em diferentes
graus, pseudo-científicas. Fusão fria, pseudoarqueologia, Cubo do tempo
de Gene Ray, astrologia, Homeopatia e Criacionismo .
1.4 Obra
Partindo inicialmente das idéias de Popper, mas procurando
desenvolvê-las a fim de superar as críticas de Kuhn e de Feyerabend, o
húngaro Imre Lakatos (1922- 1974), que também pode ser considerado como
um racionalista crítico, propõe sua metodologia dos programas de
pesquisa científica como uma explicação lógica do fazer científico.
Lakatos afirma que os relatos indutivistas e falsificacionistas da
ciência são falhos por não considerarem a complexidade do estudo
histórico das principais teorias científicas. Assim, ele procurou
analisar de que modo a razão e a história participaram do processo de
crescimento e desenvolvimento do conhecimento científico. Inclusive, ao
defender esta linha de pensamento, Lakatos, numa paráfrase a Kant7 ,
afirmou que “a filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia; a
história da ciência sem a filosofia da ciência é cega” (apud SILVEIRA,
1996b, p.220).
Assim, na tentativa de melhorar o falsificacionismo de Popper e superar
as objeções a ele (CHALMERS, 2000), Lakatos afirma que a história da
ciência permite verificar que as teorias científicas não são abandonadas
mesmo quando apresentam possíveis falsificações. Ou seja, muito tempo
pode decorrer antes que possa ocorrer o falseamento de uma teoria que
apresente dados problemáticos. Lakatos cita vários exemplos históricos a
fim de validar esta idéia8. Observações da órbita da Lua, por exemplo,
apresentaram inconsistências em relação à teoria gravitacional de
Newton, e seguiram-se quase cinqüenta anos até que fosse descoberto que
o problema não era na teoria newtoniana, e sim devido a outros fatores
não previstos. Caso semelhante ocorreu em rerlação à órbita do planeta
Urano, pois observações astronômicas também estavam refutando a teoria
gravitacional de Newton. Mais uma vez, no entanto, não se refutou a
teoria de Newton, mas procurou-se atribuir as discrepâncias
observacionais a outro fator, no caso, a existência de outro planeta,
ainda desconhecido. Em 1845 foram feitos cálculos, usando a teoria
gravitacional de Newton, que permitiram prever a localização deste
suposto planeta. Novas observações resultaram na descoberta do planeta
Netuno. Outro exemplo diz respeito à teoria heliocêntrica de Copérnico,
que mesmo falsificada por argumentos, como o da torre, da Lua, da
ausência de paralaxe, de variação de tamanho dos planetas , e outros,
que pareciam incontestáveis na época, manteve-se apoiada por vários
matemáticos e filósofos naturais, incluindo celebridades como Kepler e
Galileu, que inclusive, exerceram influência inquestionável na
construção, por Newton, da dinâmica dos movimentos e da teoria
gravitacional.
Lakatos, a partir destas e outras contestações históricas, procurou
demonstrar que a não refutação imediata das teorias permitiu o progresso
da ciência. Segundo Chalmers (2000, p.112):
Está claro que a ciência avançará mais eficientemente se as teorias
forem estruturadas de maneira a conter em seu interior indícios e
receitas bastante claros quanto a como elas devem ser desenvolvidas e
estendidas. Elas devem ser estruturas abertas para que ofereçam um
programa de pesquisa.
Assim, para Lakatos, os programas de pesquisa, ao fornecerem programas
coerentes como guia de pesquisas futuras, permitiriam avaliar
objetivamente o progresso da ciência. A metodologia dos programas de
pesquisa de Lakatos estabelece que o programa de pesquisa deva possuir
um núcleo rígido, ou seja, um conjunto de leis consideradas
irrefutáveis, que são os princípios fundamentais de uma teoria.
Exemplificando: na mecânica newtoniana o núcleo rígido é composto pelas
três leis de Newton e a lei da gravitação de Newton, na astronomia
copernicana o núcleo rígido supõe que o Sol é estacionário e os
planetas, inclusive a Terra, giram em torne dele, em órbitas circulares,
no materialismo histórico de Marx, o núcleo rígido supõe que a mudança
histórica é explicada pelas lutas de classes, na teoria do flogisto, o
núcleo rígido supõe que na combustão há liberação de flogisto .
Além do núcleo rígido, o programa de pesquisa deve possuir um cinturão
de proteção, que possui um conjunto de hipóteses auxiliares e condições
iniciais passíveis de serem refutadas, protegendo assim, o núcleo contra
refutações, condição imprescindível para que as anomalias não provoquem
abandonos precipitados de teorias, o que além de evitar que os
pesquisadores fiquem confusos, permite períodos propícios ao
desenvolvimento e o progresso das pesquisas. Foi desta forma, mantendo o
núcleo rígido, e promovendo alterações no cinturão de proteção, que foi
possível, por exemplo, manter a teoria newtoniana e progredir em direção
à descoberta do planeta Netuno.
Esta regra de manter intacto o núcleo rígido, é chamada, por Lakatos, de
heurística negativa, do programa. Haveria também a heurística positiva,
que estaria relacionada com as sugestões e propostas de modificação do
cinturão de proteção, a fim de tornar as observações refutáveis em
observações concordantes com o núcleo.
A heurística positiva apresenta um programa que inclui uma cadeia de
modelos cada vez mais complicados, que simulam a realidade: a atenção do
cientista focaliza-se na construção dos modelos de acordo com as
instruções que figuram na parte positiva do programa. (LAKATOS, 1979, p.165)
Para avaliar os programas de pesquisa, Lakatos propõe critérios que
permitem classificá-los em progressivo e degenerativo. Um programa está
progredindo, ou seja, é progressivo, quando modificações no cinturão de
proteção levam à previsão de novos fatos, e um programa está regredindo,
ou ainda, é degenerativo, quando acrescenta ajustes ad hoc que não
prevêem nenhum fato novo, ou, se prevê, este fato não é corroborado. Um
exemplo, segundo Lakatos, é o caso do programa marxista, que previu
fatos novos que nunca se concretizaram, como por exemplo, o
empobrecimento absoluto das classes trabalhadoras, a ocorrência da
revolução socialista em uma sociedade industrial desenvolvida, a
ausência de revoluções em sociedades socialistas (SILVEIRA, 1996b).
Lakatos concorda, então, com Popper na crença de que a ciência procura
aumentar seu conteúdo empírico e preditivo de suas teorias, e que esse
aumento de conteúdo não deve ser ad hoc. Ao contrário de Kuhn que
considera a revolução científica como um processo irracional, resultado
da psicologia das multidões, Lakatos afirma que a passagem de um
programa de pesquisa para outro é um processo racional. A superação de
um programa de pesquisa, ocorre quando um programa rival possui maior
conteúdo progressivamente preditivo, ou seja, prediz tudo que o programa
confrontado prediz, e ainda mais. Segundo Lakatos:
Como se sucedem as revoluções científicas? Se houver dois programas de
pesquisa rivais e um deles progride, enquanto o outro degenera, os
cientistas tendem a aderir ao programa progressivo. Esta é a explicação
das revoluções científicas. (apud SILVEIRA, 1996, p.224)
Porém, a superação de um programa por outro não é um processo imediato.
Por exemplo, “oitenta e cinco anos se passaram entre a aceitação do
periélio de Mercúrio como anomalia e sua aceitação como falseamento da
teoria de Newton” e corroboração da teoria da relatividade de Einstein
(apud ALVES-Mazzotti, 2001, p.35). É comum, durante o processo de
superação, que os cientistas trabalhem em qualquer um dos programas, ou
até mesmo, nos dois programas simultaneamente, o que evidencia que a
tese da incomensurabilidade de Kuhn é insustentável.
1.5 CONCEPÇÃO MODERNA DE CIÊNCIA
Fica assim apresentada uma das concepções modernas de ciência, as quais
colocam o fazer ciência sob uma perspectiva muito mais realista: fazer
ciência e' uma atividade humana como outra qualquer, e como tal esta'
sujeita `as convicções e julgamentos dos grupos sociais que a realizam.
Enfim, volto a frisar, me parece claro que não existe uma forma segura e
objetiva de se extrair conhecimento cientifico mesmo a partir dos fatos.
A ciência e' muito mais complexa do que se poderia supor a partir das
concepções positivistas, pois tem-se que elaborar teorias cientificas
apesar de toda a subjetividade e insegurança intrínsecas ao psiquismo
humano.
Evidentemente, o estatuto científico de uma teoria não pode ser decidido
através da mera deliberação de se definir como uma "ciência". Esse
atributo é inerente à natureza intrínseca da teoria, e não à denominação
que se lhe dê. A tarefa de determinar quais as características de uma
teoria são necessárias e suficientes ao seu enquadramento na categoria
de ciência cabe à sub-área da Filosofia intitulada Filosofia da Ciência.
Essa disciplina, assim como outros ramos do saber, vem evoluindo
constantemente. Em seu caso específico, progressos essenciais ocorreram
no século XX, e , mais acentuadamente, a partir da década de 60. Os
trabalhos de vários filósofos, entre os quais Karl Popper, Willard
Quine, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos, evidenciaram graves
problemas na concepção de ciência que prevaleceu durante séculos, e
ainda hoje é muito freqüente encontrar-se entre os não filósofos.
Muito simplificadamente, poderíamos dizer que pelo menos desde o
surgimento da ciência moderna, por volta do século XVII, acreditava-se
que a Ciência consistia na catalogação neutra de um grande número de
"fatos", dos quais então resultariam, de maneira "espontânea", certa e
infalível, as leis gerais que o regem; a reunião de tais leis
constituiria então uma teoria científica.
Conforme mencionamos, essa visão "clássica" de ciência mostrou-se
insustentável. Percebeu-se que a descrição, busca e classificação dos
fatos necessariamente envolve pressuposições teóricas de um tipo ou de
outro; que nenhuma lei teórica pode resultar lógica e infalivelmente de
um conjunto de fatos, qualquer que ele seja; que uma teoria científica
não é um simples amontoado de leis, sendo, antes, uma estrutura dinâmica
complexa, na qual participam elementos de diversas naturezas, como
resultados observacionais, hipóteses livremente concebidas, regras para
o desenvolvimento futuro da teoria, decisões metodológicas, fragmentos
de outras teorias etc.
1.6 Leitura do texto “Popper, o falseacionismo e a ‘Tese Duhem-Quine”
(pp. 224-234)
1.7 Visão geral da obra: programa de pesquisa Lakatos
1.7.1 Considerações sobre o método
Um "programa de pesquisa" lakatosiano é uma estrutura que fornece um
guia para futuras pesquisas, tanto de uma maneira positiva, como
negativa. A "heuristica negativa" de um programa envolve a estipulação
de que as assunções básicas subjacentes ao programa, que formam o seu
"núcleo rígido", não devem ser rejeitadas ou modificadas. Esse núcleo
rígido e resguardado
contra falseaçõs por um "cinturão protetor" de hipóteses auxiliares,
condições iniciais, etc. A "heurística positiva" constitui-se de
prescrições não muito precisas que indicam como o programa deve ser
desenvolvido... Os programas de pesquisa são considerados "progressivos"
ou "degenerantes", conforme tenham sucesso, ou persistentemente
fracassem, em levar a descoberta de novos fenômenos.
1.7.2 Núcleo rígido
O núcleo rígido (hard core) de um programa é aquilo que essencialmente o
identifica e caracteriza, constituindo-se de uma ou mais hipóteses
teóricas. Eis alguns exemplos. O núcleo rígido da cosmologia
aristotélica inclui, entre outras, as hipóteses da finitude e
esfericidade do Universo, a impossibilidade do vazio, os movimentos
naturais, a incorruptibilidade dos céus. O núcleo da astronomia
copernicana consiste das assunções de que a Terra gira sobre si mesma em
um dia e em torno do Sol em um ano, e de que os demais planetas também
orbitam o Sol. O da mecânica newtoniana e formado das três leis
dinâmicas e da lei da gravitação universal. O da teoria especial da
relatividade, o principio da relatividade e a constância da velocidade
da luz; o da teoria da evolução de Darwin-Wallace, o mecanismo da
seleção natural.
1.7.3 Heurística negativa
Por "uma decisão metodológica de seus protagonistas" (Lakatos 1970, p.
133), o núcleo rígido de um programa de pesquisa e "decretado"
não-refutavel. Possíveis discrepâncias com os resultados empíricos são
eliminadas pela modificação das hipóteses do cinturão protetor. Essa
regra e' a heurística negativa do programa, e tem a função de limitar,
metodologicamente, a incerteza quanto a parte da teoria atingida pelas
"falseações". Recomendando-nos direcionar as "refutações" para as
hipóteses não-essenciais da teoria, a heurística negativa representa uma
regra de tolerância, que visa a dar uma chance para os princípios
fundamentais do núcleo mostrarem a sua potencialidade. O testemunho da
historia da ciência parece de fato corroborar essa regra, como vimos nos
exemplos que demos acima. Uma certa dose de obstinação parece ter sido
essencial para salvar nossas melhores teorias cientificas dos abundantes
problemas de ajuste empírico que apresentavam quando de seu nascimento.
Lakatos reconhece, porém, que essa atitude conservadora tem seus
limites. Quando o programa como um todo mostra-se sistematicamente
incapaz de dar conta de fatos importantes, e de levar a predição de
novos fenômenos (i.e., torna-se "degenerante"), deve ceder lugar a um
programa mais adequado, "progressivo". Como uma questão de fato
histórico, nota-se que um programa nunca e abandonado antes que um
substituto melhor esteja disponível.
1.7.4 Heurística positiva
A heurística positiva de um programa é mais vaga e difícil de
caracterizar que a heurística negativa. Segundo Lakatos, ela consiste
"de um conjunto parcialmente articulado de sugestões ou idéias de como
mudar ou desenvolver as 'variantes refutáveis' do programa de pesquisa,
de como modificar, sofisticar, o cinturão protetor 'refutável'." (op.
cit. p. 135) No caso da astronomia copernicana, por exemplo, a
heurística positiva indicava claramente a necessidade do desenvolvimento
de uma mecânica adequada a hipótese da Terra móvel, bem como de novos
instrumentos de observação astronômica, capazes de detectar as previstas
variações no tamanho aparente dos planetas e as fases de Vênus, por
exemplo. Assim, o telescópio foi construído algumas décadas após a morte
de Copérnico pelo seu ardente defensor, Galileu, que também principiou a
criação da nova mecânica. Esta, a seu turno, uma vez concebida por
Newton, apontou para um imenso campo aberto, no qual se deveria buscar
uma nova matem ática, medidas das dimensões da Terra, aparelhos para a
detecção da forca gravitacional entre pequenos objetos, etc."
Tomando o exemplo de um dos mais bem sucedidos programas de pesquisa da
Física, a Mecânica Newtoniana, vemos que possui um núcleo rígido formado
pelas três leis newtonianas do movimento e pela lei da gravitação
universal, que a heurística negativa do programa recomenda sejam
mantidas inalteradas: eventuais discrepâncias com a experiência devem
ser eliminadas através de ajustes nas hipóteses auxiliares do cinturão
protetor. Esse processo ocorreu várias vezes durante o desenvolvimento
do programa, como quando, no século XIX, se verificou que as previsões
teóricas para a trajetória do planeta Urano conflitavam com os dados da
observação astronômica; ao invés de imputar esse desvio a possível
falsidade das leis do núcleo rígido, assumiu-se que deveria existir um
corpo celeste desconhecido perturbando a trajetória do planeta; mais
tarde, foi, de fato, observada a existência desse corpo, o planeta
Netuno. Assim como nesse episódio, a conjunção das heurísticas negativa
e positiva do programa newtoniano levou à inúmeros desenvolvimentos:
novas teorias ópticas, novos aparelhos e técnicas de observação, criação
de novos ramos da Matemática etc. A partir do início de nosso século,
porém, o programa tornou-se degenerante, por motivos vários que não cabe
expor aqui, vindo a ser substituído pelos programas das Teorias da
Relatividade e da Mecânica Quântica.
1.7.5 Critérios de demarcação
Como podemos notar da citação acima, os modernos conceitos de ciência,
mais realistas, deixam transparecer o caráter claramente humano da
ciência, que passa a ser então vista como um fruto das convicções de um
grupo social (que "decreta" que o núcleo rígido de seu programa de
pesquisa é não-refutável), com todo o seu conteúdo de crenças e
des-crencas e, portanto, de subjetivismo. Enfim, assume-se claramente a
realidade de que não existe um método "objetivo e seguro" de se fazer
ciência.
"A concepção lakatosiana de ciência envolve um novo critério de
demarcação entre ciência e não-ciência. Lembremos que o critério
indutivista considerava cientificas somente as teorias provadas
empiricamente. Tal critério é, como vimos, forte demais: não haveria,
segundo ele, nenhuma teoria genuinamente cientifica, pois todo
conhecimento do mundo exterior e falível. Também o critério
falseacionista, segundo o qual só são cientificas as teorias refutáveis,
elimina demais: como nenhuma teoria pode ser rigorosamente falseada,
nenhuma poderia classificar-se como cientifica."
O critério de demarcação proposto por Lakatos, por outro lado,
adequadamente situa no campo cientifico algumas das teorias unanimemente
tidas como cientificas, como as grandes teorias da física. Esse critério
funda-se em duas exigências principais: uma teoria deve, para ser
cientifica, estar imersa em um programa de pesquisa, e este programa
deve ser progressivo. Deixemos a Lakatos a palavra (1970, pp. 175-6):
"Pode-se compreender muito pouco do desenvolvimento da ciência quando
nosso paradigma de uma porção de conhecimento cientifico e uma teoria
isolada, como 'Todo cisne e branco', solta no ar, sem estar imersa em um
grande programa de pesquisa. Minha abordagem implica um novo critério de
demarcação entre 'ciência madura', que consiste de programas de
pesquisa, e 'ciência imatura', que consiste de uma colcha de retalhos de
tentativas e erros ..."
"A ciência madura consiste de programas de pesquisa nos quais são
antecipados não apenas fatos novos, mas também novas teorias auxiliares;
a ciência madura possui 'poder heurístico', em contraste com os
processos banais de tentativa e erro." Lembremos que na heurística
positiva de um programa vigoroso há, desde o inicio, um esboço geral de
como construir os cinturões protetores: esse poder heurístico gera "a
autonomia da ciência teórica".
Essa "exigência de crescimento continuo" [progressividade do programa] e
minha reconstrução racional da exigência amplamente reconhecida de
'unidade' ou 'beleza' da ciência. Ela põe a descoberto a fraqueza de
"dois" tipos de teorização aparentemente muito diferentes entre si.
Primeiro, evidencia a fraqueza de programas que, como o marxismo ou o
freudismo, são indubitavelmente 'unificados', e fornecem um plano geral
do tipo de teorias auxiliares que irão utilizar para a absorção de
anomalias, mas que invariavelmente criam suas teorias na esteira dos
fatos, sem ao mesmo tempo anteciparem fatos novos. (que fatos novos o
marxismo "previu" desde, digamos, 1917?) Em segundo lugar, ela golpeia
seqüências remendadas de ajustes 'empíricos' rasteiros e sem imaginação,
ato freqüentes, por exemplo, na psicologia social moderna. Tais ajustes
podem, com o auxilio das chamadas 'técnicas estatísticas', produzir
algumas predições 'novas', podendo mesmo evocar alguns fragmentos
irrelevantes de verdade que encerrem. Semelhantes teorizações, todavia,
não possuem nenhuma idéia unificadora, nenhum poder heurístico, nenhuma
continuidade. Não indicam nenhum programa de pesquisa, e são, no seu
todo, inúteis."
2 CONSIDERAÇÕES FINAIS
a) Aproveitamento prático – metodologia de pesquisa (cientista de hoje)
b) Preparação de pesquisas científicas.
3 ENCAMINHAMENTOS .
- Leituras complementares
- Atenção aos métodos de pesquisa
4 REFERÊNCIAS
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Ciencias Naturais e Sociais: Pesquisa quantitativa e qualitativa. 2. ed.
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MIRANDA, Antônio. A ciência da informação e a teoria do conhecimento
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