Robert G. Mays, B.Sc., e Suzanne B. Mays
Chapel Hill, NC
Traduzido por Francisco Mozart Rolim e Vitor Moura Visoni
Na experiência de quase-morte (NDE), a sede da auto-consciência do experimentador muda do local normal dentro do corpo para fora do corpo. O experienciador freqüentemente encontra a si mesmo pairando vários pés sobre seu corpo físico, observando os esforços para revivê-lo. Esta mudança de consciência para fora do corpo é uma característica primária de muitas NDEs. A NDE começa tipicamente com a transição para fora do corpo, seguida de experiências imediatas no ambiente físico e termina com um retorno ao corpo. Enquanto fora do corpo, o experienciador retém as faculdades da percepção, pensamento, volição, memória, sentimentos e consciência, tal qual como uma auto-consciência, ou seja, aproximadamente todas as faculdades da experiência consciente ordinária. Em alguns casos, a NDE revelou-se ter ocorrido quando o corpo e o cérebro estavam clinicamente mortos, como na parada cardíaca, isto é, com o EEG reto, sem pulso ou respiração e ausência de reflexos pupilares e maxilares (van Lommel, van Wees, Meyers, and Elfferich, 2001). Pim van Lommel e colegas estabeleceram que pacientes com parada cardíaca estavam clinicamente mortos mas ainda tinham ricas experiências cognitivas durante o período de completa perda de atividade cortical e do tronco cerebral, incluindo tendo percepções verídicas de seus ambientes físicos imediatos que foram depois verificados.
Resumo: A fase fora do corpo da experiência de quase-morte (NDE), onde a sede da consciência não mais está no corpo, provê evidência de que nossa auto-consciência pode existir independente do cérebro. O fenômeno da NDE durante a parada cardíaca demonstra uma continuidade da consciência durante períodos de isoeletricidade cerebral global (EEG plano) e sugere fortemente que a consciência pode continuar sem qualquer função elétrica cerebral. O fenômeno da percepção verídica durante a experiência fora-do-corpo (OBE) da NDE, o qual poderia ter ocorrido somente se a consciência tivesse operado de uma posição e perspectiva visual distante do corpo, fortemente sugere que nossa consciência pode se separar e operar independentemente do corpo. Comparando a NDE/OBE com outras formas de OBE, tais como OBEs espontâneas ou OBEs induzidas por drogas, a mais impactante diferença é que a NDE/OBE consistentemente inclui supostas percepções verídicas onde essas estão geralmente ausentes em outros tipos de OBE. As diferenças fenomenológicas entre outros tipos de OBE e a NDE/OBE sugerem que a mesma pessoa existe fora do corpo durante a NDE, libertada dos limites do corpo e existe dentro do corpo tanto antes quanto depois da NDE. Estes fenômenos tomados juntos fortemente sugerem que nossa consciência é uma entidade interna e externa por si mesma, chamada de mente auto-consciente independente, que ordinariamente opera dentro do corpo mas que por vezes pode se separar e operar independentemente dele na NDE. Se esta visão estiver correta, deveria haver numerosos fenômenos neurológicos que sugerem que a mente auto-consciente é uma realidade, tal qual na consciência ordinária.
PALAVRAS-CHAVE: experiência de quase morte, experiência fora-do-corpo, fenomenologia, problema mente-corpo, mente auto-consciente.
Na experiência de quase-morte (NDE), a sede da auto-consciência do experimentador muda do local normal dentro do corpo para fora do corpo. O experienciador freqüentemente encontra a si mesmo pairando vários pés sobre seu corpo físico, observando os esforços para revivê-lo. Esta mudança de consciência para fora do corpo é uma característica primária de muitas NDEs. A NDE começa tipicamente com a transição para fora do corpo, seguida de experiências imediatas no ambiente físico e termina com um retorno ao corpo. Enquanto fora do corpo, o experienciador retém as faculdades da percepção, pensamento, volição, memória, sentimentos e consciência, tal qual como uma auto-consciência, ou seja, aproximadamente todas as faculdades da experiência consciente ordinária. Em alguns casos, a NDE revelou-se ter ocorrido quando o corpo e o cérebro estavam clinicamente mortos, como na parada cardíaca, isto é, com o EEG reto, sem pulso ou respiração e ausência de reflexos pupilares e maxilares (van Lommel, van Wees, Meyers, and Elfferich, 2001). Pim van Lommel e colegas estabeleceram que pacientes com parada cardíaca estavam clinicamente mortos mas ainda tinham ricas experiências cognitivas durante o período de completa perda de atividade cortical e do tronco cerebral, incluindo tendo percepções verídicas de seus ambientes físicos imediatos que foram depois verificados.
A operação da auto-consciência independente do funcionamento do cérebro sugere que a consciência opera de uma forma particular enquanto nós estamos em nosso estado de consciência ordinária no corpo. Na verdade, se nossa auto-consciência pode se separar do nosso corpo e operar independentemente dele por um tempo, embora sob as circunstâncias notáveis da NDE, a auto-consciência muito provavelmente opera como uma entidade independente bem como enquanto estamos no corpo, embora esteja intimamente ligada com o cérebro e o corpo.
Assim, os fenômenos associados com o componente experiência fora-de-corpo (OBE) da NDE, onde o experienciador sente-se separado do corpo, mas ainda tem experiências verídicas do ambiente físico ordinário, pode nos dar indicações de quais aspectos da consciência são, de fato, independentes do cérebro. Por outro lado, os fenômenos da consciência que são associados com a atividade fisiológica do cérebro podem nos dar indicações de como nossa consciência opera quando unida com o cérebro.
O enigma de consciência, portanto, pode ser desvendado ou decodificado estudando a fenomenologia destes dois aspectos da experiência consciente, a OBE associada com NDEs e o correlato neural da consciência. O presente texto examina o primeiro desses aspectos fenomenologicamente, focalizando em aspectos relevantes da NDE/OBE. Outros aspectos das NDEs, além da fase de OBE, podem fornecer reflexões adicionais, mas não são considerados no presente texto. Um artigo subseqüente (Mays e Mays, 2007) se dirige a vários fenômenos neurológicos à luz da visão presente.
Fenomenologia
O termo fenomenologia descreve tanto um método de estudo de fenômenos como a descrição e classificação dos fenômenos desse estudo. Há vários métodos fenomenológicos diferentes usados em ciência cognitiva (por exemplo, Blackmore, 2006, p. 265), mas o nosso é baseado no descrito por Arthur Zajonc (1999), a saber, um método de inquérito baseado nas três etapas de investigação proposto por J. W. von Goethe: (1) “fenômenos empíricos” que são as observações ordinárias que um observador atento faria, (2) “fenômenos científicos” que são examinados por experimentação sistemática, e (3) “fenômenos puros ou arquetípicos” que permitem uma intuição direta ou encontro perceptivo com as leis de natureza. O último passo não ocorre por abstração e construção de modelos, mas sim refinando-se os fenômenos para se chegar na essência ou âmago dos fenômenos.
A forma de fenomenologia derivada da abordagem de Goethe é semelhante à fenomenologia de Edmund Husserl, mas vai além disso, pois admite mais do que relatos de consciência em primeira pessoa. É também muito semelhante à neurofenomenologia de Francisco Varela (1996) que estuda fenômenos em seus aspectos experienciais de primeira pessoa, junto com os aspectos associados neurológicos. No entanto, difere de neurofenomenologia em grau, por tratar os aspectos de primeira pessoa primariamente, com relatórios experimentais neurológicos como suporte.
Em suas investigações, Goethe era muito relutante em prosseguir imediatamente para definir as causas de padrões observacionais em termos de mecanismos subjacentes, mas o permitia quando era sensato fazer assim. É possível permanecer em cada etapa de explicação dentro do fenômeno e ainda crescer ao nível de teoria (Zajonc, 1999). Para Goethe, os próprios fatos fenomenais são a teoria: “Não procure por nada atrás dos fenômenos; eles próprios são a teoria”. “Deixe que os fatos falem por sua teoria”. (Bortoft, 1996, p. 71)
Assim, para explicar a consciência, precisamos procurar primeiro na própria consciência e cada maneira na qual a consciência se manifesta como fenômeno, incluindo, naturalmente, tanto experiências de quase-morte como resultados experimentais neurológicos. As experiências de primeira-pessoa de sujeitos experimentais ou pacientes são essenciais para o entendimento dos relacionamentos entre a consciência e os fenômenos neurológicos e levarão a uma teoria compreensiva de consciência.
A Experiência de Quase-Morte
A experiência de quase-morte tipicamente ocorre quando uma pessoa tem uma crise médica que traz a pessoa perto da morte ou quando uma pessoa experimenta perigo intenso físico ou emotivo (Greyson, 2000a). Raymond Moody (1975) descreveu 15 elementos comuns que se repetiram em relatórios de NDEs. Estes elementos incluem inefabilidade, ouvir alguém pronunciar “morto”, sentimentos de paz, experiências auditórias incomuns, tais como bipes ou zumbidos, atravessar uma região escura ou túnel, sentir-se separado do corpo físico – normalmente com percepção do ambiente físico, incluindo ver o próprio corpo, encontrar parentes ou amigos falecidos, um “ser de luz”, experimentar uma revisão panorâmica dos acontecimentos da vida, o retorno ao corpo e contar a outros sobre a experiência, inclusive corroborando acontecimentos testemunhados enquanto fora-do-corpo. Moody informou que muitas experiências individuais de quase-morte incluíram 8 ou mais destes elementos comuns, mas era raro que quaisquer duas experiências tivessem exatamente os mesmos elementos e só algumas experiências incluíam até 12 dos 15 elementos.
NDEs são informadas ocorrer durante um vasto leque de condições médicas ameaçadores da vida, inclusive parada cardíaca em infarto do miocárdio, choque anafilático, hemorragia cerebral e assim por diante, em tentativas de suicídio, ferimentos severos devido a acidentes e quedas, e em afogamentos. NDEs também são relatadas com doenças sérias que não são imediatamente ameaçadoras à vida e com as pessoas que parecem estar ameaçadas de uma injúria severa inevitável ou morte, mas que não estão necessariamente feridas. As últimas experiências, chamadas às vezes de NDEs antecipatórias, podem ocorrer em um acidente de trânsito ou em quedas de montanhas, onde a injúria é evitada no último instante.
Certas características das NDEs mais comumente são informadas em indivíduos que chegaram mais próximos à morte, como medido por registros médicos (Owens, Cook e Stevenson, 1990). Tais características incluem a experiência de uma luz forte (por exemplo, no fim de um túnel ou emanando de um ser de luz) e funções cognitivas aumentadas (tal como clareza aumentada de pensamento ou clareza perceptiva ou controle aumentado de cognição).
NDEs são informadas por aproximadamente 30% das pessoas que chegam perto de morte (cf. Greyson, 2000a) ou aproximadamente 4 – 5% da população total (Gallup e Proctor, 1982). Estudos prospectivos, no entanto, de pacientes cardíacos que com êxito foram reanimados depois da parada cardíaca indicam que a incidência de NDEs neste subgrupo é muita mais baixa, variando de 6% a 18% (van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001; Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick, 2001; Schwaninger, Eisenberg, Schechtman, e Weiss, 2002; Greyson, 2003). A combinação dos dados destes estudos prospectivos resulta num índice total de aproximadamente 15% para pacientes de parada cardíaca. Uma explicação da diferença é que essa reanimação cardiopulmonar prolongada pode induzir perda de memória que significativamente pode reduzir o número de NDEs informadas (Dougherty, 1994; Sauvé, Walker, Massa, Winkle, e Scheinman, 1996; van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001, p. 2042).
Várias hipóteses explanatórias tanto fisiológicas quanto psicológicas foram propostas para explicar as NDEs (Greyson, 1998). Uma hipótese psicológica é que a NDE é uma forma de despersonalização, isto é, um sentimento de separação tanto do mundo, como da própria identidade, ou sentindo que a vida é irreal ou similar ao um sonho. S despersonalização é tipicamente desagradável, com sentimentos de ansiedade, pânico e vazio, não incluem um sentido de estar “fora do corpo” e ocorre mais freqüentemente em adultos jovens e mais freqüentemente em mulheres. Em contraste, os elementos da NDE são tipicamente agradáveis com sentimentos de paz, calma, alegria e amor e o NDEr continua a ter um sentido claro de identidade pessoal durante a experiência. NDEs tipicamente envolvem clareza de pensamento e alerta aumentado, tem um componente fora-de-corpo e não possuem nenhuma faixa etária característica e uma distribuição igual de gênero.
Outra hipótese psicológica é que a NDE é uma forma de dissociação, isto é, algum grau de separação de pensamentos, emoções, sensações ou memórias de uma consciência ordinária. Respostas dissociativas não-patológicas estão presentes até certo ponto na maioria de pessoas, tal como devaneios, absorção ao executar uma tarefa ou absorção ao assistir televisão, ao passo que sintomas patológicos da dissociação, tal como ter nenhuma memória de um acontecimento significativo de vida ou sentindo que aquele corpo não é o próprio, pode resultar de trauma severo psicológico ou físico tal como estupro, abuso sexual ou sendo refém. Muitas NDEs incluem características que são coerentes com a dissociação tal como a desconexão do corpo numa OBE e elementos da NDE podem ser desencadeados pela ameaça percebida de dano físico, mesmo quando nenhum dano físico realmente ocorre. Um estudo de NDErs usando a Escala de Experiências de Dissociativas (Greyson, 2000b) mostrou que as pessoas reportando NDEs informaram mais sintomas dissociativos que o grupo de comparação e que a “profundidade” da NDE foi positivamente correspondida com sintomas dissociativos. No entanto, o nível de sintomas exibidos por NDErs era consideravelmente mais baixo que o nível associado com desordens patológicas dissociativas. NDErs não mostram o nível de angústia ou dano que pacientes com desordens dissociativas fazem. Assim, o NDEr responde a sua experiência com um nível não-patológico de resposta dissociativa ao stress.
As hipóteses explanatórias fisiológicas para a NDE incluem hipoxia (oxigênio insuficiente), hipercarbia (nível de dióxido de carbono excessivo), a liberação de endorfinas ou vários neurotransmissores, atividade elétrica neural no lóbulo temporal direito ou do sistema límbico, a presença de várias drogas ou equivalentes endógenos até agora não identificados, e assim por diante. Em geral, estas explicações sofrem do fato que estas condições não são presentes em todos casos de NDE. Nenhuma teoria fisiológica foi ainda proposta para explicar satisfatoriamente todos os elementos comuns de NDEs (Greyson, 1998). Pode ser possível que uma resposta fisiológica sirva para desencadear a NDE e também pode ser possível que um modelo multifacetado explanatório fisiológico possa explicar todos os aspectos da NDE (Blackmore, 1993). No entanto, tais explicações necessitariam incluir as NDEs antecipatórias, onde a NDE claramente é desencadeado por uma ameaça percebida de injúria séria ou morte, mas nenhuma ferida física de fato ocorreu.
O componente fora-do-corpo da NDE
O foco da presente artigo é o componente OBE da NDE. A fenomenologia da OBE, ocorrendo durante a NDE, deveria ajudar no entendimento da natureza da consciência, uma vez que a consciência do NDEr aparenta se separar do corpo físico no início da OBE e depois se reunir com o corpo. Mais ainda, durante o componente OBE, percepções do ambiente físico do NDEr são feitas tais que aparentam ser verídicas e suas veracidades podem potencialmente ser corroboradas.
A proporção de NDErs que relatam uma OBE como parte de suas experiências tem sido variavelmente reportada como 75% (Greyson e Stevenson, 1980), 83% (Greyson, 1983) e 100% (Sabom, 1982). A diferença entre esses diferentes estudos pode ser devida a definição de OBE. A OBE é definida como a experiência da consciência de alguém ser deslocada do corpo físico. No índice de peso da experiência central (WCEI) para NDE, Kenneth Ring (1980) marcava uma pontuação de 2 se o indivíduo descrevesse uma “clara experiência fora-do-corpo” e 1 se o indivíduo tivesse a sensação de separação corporal sem isto. Em sua escala NDE, Bruce Greyson (1983) marcava 2 se o indivíduo claramente deixasse o corpo e existisse fora dele e 1 se o indivíduo perdesse consciência do corpo.
Um impactante exemplo de clara experiência de separação do corpo é o caso de George Ritchie (Ritchie e Sherrill, 1978, p. 36; Ritchie, 1998, p. 51), que inclui uma muito elaborada NDE e uma incomum OBE com aparentes percepções verídicas. O soldado Rirchie, 20 anos, um recruta recente no Exército, morreu de pneumonia aguda dupla no hospital em Camp Barkeley, localizado próximo a Abilene, Texas, em torno das 3:00 do dia 22 de dezembro de 1943. Richie havia estado inconsciente, mas acordou e encontrou a si mesmo sentando em sua cama com outra pessoa. Ele lembrou sua urgente necessidade de ir para Richmond para o início de seu treinamento médico e percebeu que tinha perdido o trem. Richie deixou o hospital, passando diretamente através de suas pesadas portas de metal e viu-se voando rapidamente, cerca de 500 pés, sobre a fria paisagem. A noite era clara e fresca, mas ele não sentia frio. Ele viu que estava viajando para leste da posição da Estrela Polar a sua esquerda no céu noturno.
Richie chegou a um largo rio com uma ponte comprida e alta e uma cidade relativamente grande no aterro distante. Ele sentiu que deveria parar de seguir as direções para Reymond e “pousou” em uma lanchonete 24 horas, com piso alvirrubro, numa esquina, com um sinal em neon azul escrito “CAFÉ” acima da porta e um sinal “Pabst Blue Riboonn Beer” numa grande janela frontal à direita. Na tentativa de falar com um transeunte, Richie percebeu que os outros não podiam vê-lo. Quando ele se inclinou para pegar a linha de telefone de uma cabine telefônica, sua mão passou por ela e ele percebeu que de alguma forma ele havia se separado de seu corpo e agora precisava voltar para ele. Ritchie rapidamente retornou ao hospital, mas teve dificuldade em achar seu corpo entre os 2300 leitos do hospital. Ele finalmente reconheceu seu corpo pelo anel em sua mão. Um lençol havia sido posto sobre sua cabeça e ele percebeu que havia morrido. Ainda, ele estava acordado, pensando e experimentando, só que sem um corpo. Freneticamente Richie pegou o lençol para tirá-lo, mas agarrou apenas o ar. Ritchie então encontrou um Ser de Luz que ele compreendeu ser Cristo. Ele teve uma revisão de vida e experiências extensas posteriores em outras esferas. Richie finalmente retornou ao seu corpo sob o lençol, com sua garganta em chamas e seu peito dolorido. Um assistente do hospital observou sua mão e persuadiu o médico a injetar adrenalina diretamente em sua musculatura cardíaca, um procedimento médico incomum naquela época. Ritchie reviveu e finalmente se recuperou.
Dez meses depois, após ser reprovado no treinamento médico, Ritchie estava dirigindo com três amigos do Exército de volta à Camp Barkeley para concluir o treinamento básico. Eles dirigiram ao sul de Cincinnati, seguindo o Rio Mississipi e vieram à Vicksburg, onde permaneceram durante a noite. Na manhã seguinte, Richie encostou o carro em frente à lanchonete. Ele reconheceu o sinal em neon (ausente no momento), o sinal Pabst na janela e a linha telefônica, exatamente como haviam aparecido antes. A lanchonete estava a 524 milhas diretamente ao leste da porta do hospital em Camp Barkeley.
Assim, a história de George Ritchie é única pela clareza e duração do componente OBE e por suas percepções verídicas evidentes da realidade física. Esses aspectos provavelmente resultaram de circunstância incomum de ter um forte desejo (não perder o início de seu treinamento médico) no instante de sua “morte”. Esse desejo o propeliu do hospital para uma estranha cidade muitas milhas distante, quando muitas experiências OBEs/NDEs permanecem geralmente na vizinhança do corpo do NDEr.
A fenomenologia da experiência de quase-morte tem sido documentada por um grupo de pesquisadores (p.ex., Moody, 1975; Moody e Perry, 1988; Greyson e Stevenson, 1980; Sabom, 1982; Valarino, 1997; Ring e Cooper, 1999). Se nós focarmos especificamente no componente OBE destas descrições fenomenológicas e dos relatórios gerais de NDE/OBEs na literatura, podemos desenvolver uma descrição mais elaborada da NDE que enfatiza o componente OBE. Assim, os elementos típicos do cenário da NDE que inclui uma OBE são listados aqui. Vários desses elementos não se apresentariam numa NDE que não incluísse um componente OBE.
1 – A pessoa experimenta um trauma físico tal como um acidente ou uma doença súbita tal como uma parada cardíaca.
2 – A pessoa tem sentimentos de paz e ausência de dor física
3 – Pode ser uma sensação de tilintar ou som em que a pessoa encontra sua consciência pairando sobre seu corpo físico próximo do teto, observando a equipe médica revivê-lo(a). Após um momento, o indivíduo reconhece que está observando seu próprio corpo, mas fica indiferente com esta descoberta.
4 – A pessoa pode ver que tem um corpo não-material e, menos freqüentemente, pode ver um cordão ou linha unindo ao corpo físico. Seu “corpo” sente leveza e ausência de dor mesmo quando os médicos realizam procedimentos que ordinariamente seriam dolorosos.
5 – As percepções da pessoa estão melhoradas, podendo se mover com a vontade ou desejo, e o indivíduo “escuta” outros no recinto falando por transferência de pensamento. Pode recordar coisas de sua vida pregressa e seus eventos recentes.
6 – A pessoa pode experimentar aspectos posteriores de uma NDE: um túnel escuro, revisão de vida, ir em direção a uma luz, encontrar parentes falecidos, entre outros. O indivíduo pode perceber ou ser orientado a voltar ao seu corpo.
7 – A pessoa retorna ao corpo e pode, neste ponto, ter percepções adicionais de ambientes físicos.
8 – A pessoa se reúne com o corpo físico. O indivíduo volta a si, puxado de volta através do túnel, ou voltar instantaneamente ao corpo físico. Sua perspectiva é agora dentro do corpo, olhando acima. A dor física retorna. A pessoa pode perder a consciência nesse momento.
9 – Após a recuperação física, a pessoa relata a experiência a outros. A pessoa deseja verificar sua experiência e busca outros para confirmar que o que viu realmente aconteceu ou verifica os eventos por si só.
10 – A memória da experiência é vívida, duradoura e, após um tempo, a experiência é integrada com uma das experiências da vida pessoal juntamente com outros possíveis efeitos posteriores. (Greyson e Stevenson, 1980).
Uma fenomenologia mais detalhada especificamente do componente OBE da NDE é autorizada, a qual nós apresentamos nas seções subseqüentes: a continuidade da consciência durante a NDE/OBE, a veracidade das percepções durante a NDE/OBE, uma comparação da NDE/OBE versus outros tipos de OBE e, finalmente, a fenomenologia da NDE/OBE.
Continuidade da Consciência com a Completa Cessação da Função Cerebral
Para desenvolver um entendimento da relação da consciência durante uma NDE com o funcionamento do cérebro, vários pesquisadores têm focado em estudos prospectivos dos sobreviventes de parada cardíaca para prover um modelo sem ambigüidade da NDE durante o processo da morte (Parnia, Waller, Yeates, e Fenwick, 2001; Parnia e Fenwick, 2002). A NDE ocorre com razoável freqüência durante paradas cardíacas, às vezes com uma fase OBE que inclui elementos verídicos (Sabom, 1982; Sabom, 1998; van Lommel, van Wees, Meyers, and Elfferich, 2001). A fisiologia da função cardíaca, da função respiratória, da atividade elétrica cerebral e da atividade vascular cerebral seguintes a uma parada cardíaca é bem conhecida e corresponde aos critérios para determinação da morte: ausência de atividade cardíaca, ausência de respiração espontânea e pupilas dilatadas e fixas. Dentro de 10 segundos após uma parada, a corrente sanguínea, a atividade elétrica cerebral e a função do tronco cerebral rapidamente cessam e o paciente rapidamente perde a consciência. Por um período, o paciente pode ser considerado clinicamente morto, mesmo se ele é ressuscitado com sucesso subseqüentemente. Contudo, durante a parada, alguns pacientes relatam experiências fora-do-corpo vívidas e conscientes deles mesmos e de seus ambientes físicos que são característicos da NDE.
Dentro dos primeiros 10 segundos ou próximos, a velocidade da corrente sanguínea na artéria cerebral média (Vmca) cai para zero cm/seg e a pressão sanguínea cai para menos de 20 mmHg (Gopalan, Lee, Ikeda, e Burch, 1999; de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998; Clute e Levy, 1990; Parnia e Fenwick, 2002). Vmca é uma confiável medida da corrente sanguínea cerebral geral. Também durante os iniciais 10 segundos, o eletroencefalograma (EEG) do paciente sofre primeiro por um tempo curto um aumento nas freqüências alfa, então uma queda tanto na alfa como na beta, um aumento nas freqüências delta e finalmente uma queda nas delta (Visser, Wieneke, van Huffelen, de Vries, e Bakker, 2001). O EEG então cai a zero ou isoeletricidade (plano) dentro de 10-20 segundos após a parada (de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998; Clute e Levy, 1990; Losasso, Muzzi, Meyer, e Sharbrough, 1992; Vriens, Bakker, de Vries, Wieneke, e van Huffelen, 1996). O paciente perde a consciência antes da isoeletricidade, durante a elevada atividade delta, que é cerca de 10 segundos após a parada cardíaca (Aminoff, Scheinman, Griffin e Herre, 1988; Brenner, 1997). Também logo antes da isoleletricidade, o paciente pode exibir leves espasmos e contrações musculares (Brenner, 1997). Com o declínio da atividade elétrica cortical, a atividade do tronco cerebral também declina simultaneamente à isoeletricidade. Este efeito é observado diretamente pelo monitoramento dos potencias auditivos evocados durante a parada cardíaca induzida em procedimentos de parada circulatória hipotérmica para tratamentos de aneurismas circulatórios cerebrais (Spetzler, Hadley, Rigamonti, Carter, Raudzens, Shedd, e Wilkinson, 1988). A isoeletricidade do tronco cerebral é também consistente com a observada perda de consciência e perda geral da função autônoma e reflexos associados com a atividade elétrica do tronco cerebral: não há respiração espontânea e resposta pupilar à luz, reflexos das córneas, do maxilar ou de tosse. Uma vez que a atividade elétrica do tronco cerebral espelha a atividade elétrica cortical como um resultado do nível da circulação cerebral, é razoável inferir que toda a atividade elétrica cerebral cessa nos primeiros 15 segundos, em média, da parada cardíaca.
Com o início da ressuscitação cardiopulmonar (CPR), tais como compressões torácicas, desfibrilações, respiração artificial e administração de drogas, baixos níveis da circulação sanguínea podem regredir. Com a reperfusão, o EEG pode começar a se recuperar, mesmo antes da função cardíaca ser restaurada (por exemplo, Losasso, Muzzi, Meyer, e Sharbrough, 1992). A recuperação do EEG segue o padrão das mudanças do EEG na parada cardíaca em ordem reversa (Brenner, 1997). Enquanto a duração da parada aumenta, o tempo de recuperação do EEG (o tempo, medido da recuperação cardíaca ao retorno ao EEG normal) aumenta ainda mais. Por exemplo, uma parada de 40 segundos resultará num tempo de recuperação de um adicional cerca 80 segundos (de Vries, Visser, and Bakker, 1997; Vriens, Bakker, de Vries, Wieneke, e van Huffelen, 1996). Mesmo após curtos períodos de inconsciência de 60-90 segundos, o paciente está geralmente ofuscado, lento à respostas ou confuso por cerca de 30 segundos após recobrar a consciência (Aminoff, Scheinman, Griffin, and Herre, 1988).
Se a parada dura mais que um limiar de 37 segundos, quando a circulação então se reconstitui, há um período de “hiperfusão” cerebral onde a corrente sanguínea e a levada de oxigênio para o cérebro estão bem acima do normal (Smith, Levy, Maris e Chance, 1990; de Vries, Bakker, Visser, Diephuis, e van Huffelen, 1998). Os dados para períodos mais longos de parada cardíaca estão disponíveis de experimentos com animais. Numa isquemia cerebral induzida em coelhos de 2,5 a 15 minutos, regiões específicas do cérebro desenvolvem defeitos circulatórios os quais inibem ou previnem reperfusões, um fenômeno chamado “não-refluxo multifocal” (Ames, Wright, Kowada, Thurston e Majno, 1968). Os defeitos do não-refluxo ocorrem durante a parada e aumentam em número proporcional ao aumento da duração da isquemia. Os defeitos são provavelmente causados por pressão pós-parada reduzida, elevada viscosidade sanguínea, coágulos sanguíneos disseminados e compressão de vasos sanguíneos devido ao inchaço (Buunk, van der Hoeven e Meinders, 2000). Se os defeitos são muito severos, a hiperfusão global e a hiperoxia que se seguem não são adequadamente capazes de reoxigenar as regiões afetadas. Assim, quanto maior a duração das isquemias cerebrais, maior a extensão das áreas de dano permanente que podem ocorrer. As regiões que eram mais susceptíveis aos danos do não-refluxo nos experimentos animais foram o estriado, o tálamo e o hipocampo assim como várias regiões do córtex (Kågström, Smith, e Siesjö, 1983). Esses resultados são consistentes com os achados em humanos (Kinney, Korein, Panigrahy, Kikkes, e Goode, 1994; Fujioka, Nishio, Miyamoto, Hiramatsu, Sakaki, Okuchi, Taoka, e Fujioka, 2000) e são consistentes com os observados déficits cognitivos e de memória em sobreviventes de paradas cardíacas (Dougherty, 1994; Sauvé, Walker, Massa, Winkle, e Scheinman, 1996).
Em unidades de terapia cardíaca, a duração comum das paradas cardíacas é de 1 a 2 minutos (van Lommel, 2006), 5 minutos em hospitais de salas não monitoradas (Herlitz, Bång, Aune, Ekström, Lundström, e Holmberg, 2001) e mesmo mais longas numa parada cardíaca fora do ambiente hospitalar. No estudo prospectivo holandês de 344 paradas cardíacas (van Lommel, van Wees, Meyers, e Elfferich, 2001), 234 (68%) dos 344 pacientes foram ressuscitados com sucesso no hospital. Destes, 190 (81%) foram ressuscitados dentro de 2 minutos da parada e 187 (80%) estiveram inconscientes menos de 5 minutos. Outros 30 que foram ressuscitados no hospital (13%) foram ressuscitados dentro de 1 minuto da parada e estiveram inconscientes menos de 2 minutos. Dos 344 pacientes do estudo, 101 (29%) receberam CPR fora do hospital (geralmente na ambulância) e ouros 9 (3%) foram ressuscitados tanto fora como dentro do hospital. Desses 110 pacientes, 88 (80%) tiveram uma parada mais longa que 2 minutos e 62 (56%) estiveram inconscientes por mais de 10 minutos. Apenas 12 pacientes (9%) tiveram uma parada mais longa que 10 minutos. Em geral, 123 (36%) dos 344 pacientes estiveram inconscientes mais que 60 minutos. A duração média da parada cardíaca nesse estudo foi 3,8 minutos e a duração média da inconsciência foi de 109 minutos (n=344).
Essas estatísticas são provavelmente típicas da ressuscitação das paradas cardíacas em geral. Assim, o típico sobrevivente de parada cardíaca em hospital sofre uma parada por 1 a 2 minutos e fica inconsciente por 2,5 a 5 minutos. O típico sobrevivente de parada cárdica externo ao hospital sofre uma parada por cerca de 4 a 10 minutos e permanece inconsciente por cerca de 10 a 60 minutos.
Da precedente descrição da fisiologia da parada cardíaca, o período da isoeletricidade cerebral global tipicamente vai de 15 segundos após a parada a 5-10 segundos após o início da CPR (compressões torácicas ou desfibriladores), mas reverte a isoeletricidade quando as compressões torácicas são descontinuadas, se a função cardíaca não inicia. Mesmo com o reinício da atividade elétrica, o EEG não retorna ao normal por um considerável tempo após a atividade rítmica delta reaparecer, dependendo da profundidade da parada (de Vries, Visser e Bakker, 1997; Vriens, et al., 1996). Num cenário de caso ideal de uma parada de apenas 40 segundos, o tempo de recuperação do EEG seria um adicional de 80 segundos. Em paradas mais longas, o tempo de recuperação do EEG e funções cognitivas correspondentes seriam influenciados pelos efeitos de não-refluxo multifocais que ocorrem e seriam consideravelmente mais longos. Similarmente, o período de inconsciência vai de 10 segundos após a parada até algum tempo após o retorno do EEG normal, provavelmente seguido por um período de desorientação ou consciência confusa. Em paradas cardíacas de 2 minutos ou mais, a duração da inconsciência é provavelmente mais influenciada por efeitos de não-refluxo multifocais.
Durante o período de isoeletricidade cerebral global e perda da consciência, alguns sobreviventes de parada cardíaca reportaram NDEs vívidas que incluem OBEs com percepções verídicas de eventos de suas ressuscitações. O estudo de Michael Sabom (1982) consistiu de 106 pacientes que haviam sobrevivido a episódios não cirúrgicos de inconsciência e estiveram próximos da morte, incluindo 78 paradas cardíacas, 20 comas, 7 acidentes com risco de morte e 1 tentativa de suicídio. Desses 106 pacientes, 61 reportaram uma NDE seguindo o evento de crise da quase-morte. Notem que esses eventos de quase-morte que incluíram NDE não necessariamente foram os eventos que traziam os pacientes à atenção de Sabom. Dos 61 NDErs, 32 alegaram ter visto alguma parte de sua ressuscitação numa OBE, mas 26 destes eram incapazes de prover detalhes suficientes para verificação, porque a atenção do paciente estava diretamente voltada a outras coisas e não aos detalhes da ressuscitação, por exemplo a sensação de liberdade ou o estupefação do paciente no que estava acontecendo a ele. Os 6 pacientes restantes, todos casos de parada cardíaca, proveram detalhes que puderam ser analisados. Desses 6 sobreviventes cardíacos, 4 foram entrevistados 1 ano após o evento de quase-morte, 1 após 4 anos e 1 após 5 anos.
Em cada um dos seis casos, os detalhes providos da percepção OBE corresponderam precisamente com os procedimentos médicos, como o uso de compressão torácica, desfibrilação e coleta de sangue para análise dos gases sanguíneos e com os registros médicos em extensão e detalhes contidos. Muitas das percepções OBE foram de eventos que ocorreram durante o período de provável isoeletricidade cerebral, descrevendo os eventos prévios à CPR e os passos iniciais da CPR. Posteriormente, os pacientes não experimentaram interrupção ou alteração da experiência consciente, mesmo quando a atividade elétrica cerebral provavelmente reiniciaria, até haver uma clara transição de volta ao corpo. Em 5 dos 6 casos, o paciente deu uma descrição definida dessa transição, geralmente descrevendo como uma troca de perspectiva de estar fora do corpo olhando para baixo para estar dentro do corpo olhando para cima. Essas transições foram associadas com o retorno da consciência no corpo.
Nos primeiros três casos de Sabom, a descrição provida pelo paciente durante o período de provável isoeletricidade foi precisa comparada com o registro médico.
* Caso 1: o paciente relatou como tendo caído no chão, podendo ver o chão de cima, estava flutuando e posto numa maca, o médico deu um forte golpe no peito e então fez compressões torácicas. O registro médico descreveu que o paciente desmaiou na sala, não tinha pulso ou respiração e a CPR foi iniciada.
* Caso 2: o paciente relatou ter uma IV inserida, compressões torácicas e uma agulha inserida para “algo sobre gases sanguíneos”. O registros médicos descreveram o paciente como inconsciente, uma IV foi iniciada, uma grande injeção de glicose intravenosa dada (sem resposta), então “medidas ressuscitadoras completas” foram iniciadas e o sangue arterial foi colhido. Interessantemente, a desfibrilação não foi notada pelo paciente ou mencionada no registro médico.
* Caso 3: o paciente relatou vomitar, em seguida deixar o corpo e então ver de cima a enfermeira administra-lhe um choque que puxou o paciente de volta ao corpo. O registro médico descreve o paciente vomitando e então desenvolvendo fibrilação ventricular (parada cardíaca) a qual “respondeu prontamente à desfibrilação”.
Posteriormente, o balanço das descrições nesses três casos, além do período de provável isoeletricidade, foi consistente com o balanço dos respectivos registros médicos. Em outros casos, o registro médico não estava disponível ou tinha apenas uma mínima descrição. Contudo, os relatos do pacientes continham puramente percepções visuais que eram ou posteriormente verificadas ou achadas como provavelmente acuradas.
* Caso 4: o paciente descreveu o uso de uma máquina desfibriladora após o início compressões torácicas da CPR. A máquina tinha um medidor com duas agulhas, uma fixa e uma móvel, a última a qual gradualmente se moveu. (Isto provavelmente descreve um medidor que marca os watts-segundos da desfibrilação e mede a carga da máquina naquela série.) A enfermeira ou o médico moveu a agulha fixa toda vez antes da desfibrilação e a outra agulha gradualmente se moveu. O paciente então descreveu os eletrodos do desfibrilador como discos redondos com botões em cima da alavanca a qual é usada para fornecer o choque. O paciente a seguir descreve a sequência de ressuscitação de um choque do desfibrilador entre um terço e meia escala, compressões torácicas, um choque mais forte (mais de meia escala), compressões torácicas e um choque mais forte (cerca de três quartos), após o que o paciente sentiu, ele estava retornando à consciência (ordinária). Não está claro se houve compressões torácicas prévias à primeira desfibrilação. Se não houve, então estas percepções puramente visuais provavelmente começaram durante a isoeletricidade; do contrário foram feitas certamente durante um período de inconsciência. A descrição do desfibrilador é consistente com desfibriladores que eram de uso comum na época (1973) e a descrição de desfibrilações progressivamente mais fortes intercalaram com compressões torácicas é também consistente com práticas médicas comuns. O paciente mesmo negou ter visto tal desfibrilador ou procedimentos CPR antes. As percepções puramente visuais do ajuste e do movimento das duas agulhas poderia somente ter sido feita enquanto a máquina estava em uso, um fato que ajuda a confirmar que as percepções ocorreram durante o procedimento e não em algum outro momento.
* Caso 5: o paciente descreveu que “tiros” foram primeiramente administrados na virilha, o médico então começou a inserir uma agulha em seu corpo em um lado pela axila, mas então mudou de idéia e decidiu por em outro lado, próximo ao coração. (Este procedimento foi provavelmente um tentativa de adentrar a veia subclávia, abaixo da clavícula, para administrar drogas ou inserir um cateter.) Após a ressuscitação, o paciente reportou dizendo ao médico que ele observou que o este mudou de idéia e foi para o outro lado para fazer este procedimento e o médico confirmou seu relato. Da descrição do paciente, o sangue arterial foi primeiro colhido, então o procedimento subclaviana foi feito e então a desfibrilação foi realizada. O registro médico descreveu que a CPR completa foi instituída e os gases sanguímeos foram drenados. Da descrição do paciente, não está claro quando, quanto ou mesmo se as compressões torácicas foram feitas, logo não está claro se a percepção visual do médico mudando de idéia e movendo-se ao outro lado ocorreu durante a provável isoeletrcidade. Em qualquer caso, ocorreu enquanto o presente paciente estava inconsciente.
*Caso 6: o paciente descreveu o uso de compressões torácicas, desfibrilação e injeção no coração como se ele estivesse mais e mais alto, fora do corpo. O paciente então descreveu ver, enquanto ele continuava inconsciente, sua esposa, seu filho mais velho e sua filha mais velha descer até a sala e falar com o médico. Sabom foi capaz de confirmar seu relato independentemente com sua esposa e filha. A esposa havia vindo para visita, sem anúncio, com dois de seis filhos adultos e estava a pelo menos 10 quartos do quarto do paciente quando a parada cardíaca ocorreu. A enfermeira impediu-os de seguir adiante. O paciente foi conduzido para o hall, mas nunca olhando em direção de sua família e foi levado para outro andar sem cruzar com eles no hall. O paciente acuradamente identificou quem estava com sua esposa, mesmo a visita da família não tendo sido esperada e a esposa podendo trazer qualquer um ou dois de seus seis filhos para visita. A esposa confirmou a conversa com o médico no momento. Novamente, esta percepção puramente visual ocorreu durante a inconsciência.
O estudo de Sabom mostra a dificuldade em verificar relatos de percepções verídicas durante uma NDE/OBE. O paciente geralmente pode prover muitos detalhes específicos de eventos percebidos durante uma OBE, mas os registros médicos geralmente fornecem apenas aqueles detalhes que são necessários para o cuidado médico em curso. A menos que os médicos, enfermeiros e o corpo clínico sejam entrevistados dentro de um curto período de tempo do evento, suas memórias não serão provavelmente detalhadas ou acuradas. Estas dificuldades são limitações resultantes dos procedimentos das pesquisas e podem ser superadas. Um protocolo de entrevistas independentes tanto de pacientes como do corpo clínico tão cedo quanto possível após o evento forneceria verificação tanto das percepções detalhadas da OBE do paciente, como da condição médica específica do paciente no momento.
Para ajudar a verificar que as percepções OBE vêm da percepção real dos eventos, Sabom visou eliminar a possibilidade de que as percepções do paciente pudessem ser atribuídas à imaginação baseadas em conhecimento prévio dos procedimentos CPR (derivados, por exemplo, de séries de televisão), em expectativas baseadas em experiência prévia com procedimentos cardíacos de eventos médicos anteriores ou em simples adivinhações. Sabom entrevistou um grupo controle de 25 pacientes cardíacos, com histórico similar a aqueles que reportaram OBE, tendo uma doença cardíaca de duração média maior que 5 anos, com experiências prévias em internações de ataque cardíaco, cateterismo, cirurgia em coração aberto, parada cardíaca sem OBE, entre outros. Os controles foram solicitados a descrever em detalhe visual o que eles razoavelmente esperariam ver do canto de um quarto de hospital durante a CPR de um paciente de parada cardíaca. 23 dos 25 pacientes controles fizeram tentativas de descrever o procedimento da CPR. Destes, 20 fizeram um erro crasso em seus relatos descritivos, mais comumente o uso de respiração boca-a-boca, que é raramente usado num procedimento hospitalar. Os outros 3 deram limitadas descrições do procedimento CPR sem erro óbvio. Um desses controles omitiu elementos chaves tais como compressões torácicas e ventilação artificial e outros 2 haviam testemunhado ressuscitações reais em ambientes hospitalares.
Sabom concluiu que os resultados do grupo controle sugerem que as descrições da CPR de NDE/OBEs não foram baseadas somente no conhecimento prévio geral dos pacientes em CPR. Mais ainda, há forte correspondência entre as percepções OBE e os reais procedimentos descritos no registro médico. Os relatos em OBE contêm numerosos detalhes específicos que eram ausentes das descrições do grupo controle. Sabom também concluiu que o staff médico muito provavelmente não forneceu detalhes adicionais sobre os procedimentos CPR dos pacientes porque não havia razão concebível para fazê-lo. Mais ainda, era improvável que os pacientes montassem juntos um retrato da ressuscitação de percepções visuais, auditivas ou (adicionaríamos) táteis feitas num estado semiconsciente porque as percepções dos detalhes foram visuais em sua natureza, mas fora do campo visual dos olhos físicos do paciente e não poderiam ser derivadas de informações sensórias auditivas (ou táteis). Nós adicionaríamos que algumas das percepções foram feitas após a parada e previamente ao início da CPR, durante o período de provável isoeletricidade cerebral completa, quando nenhuma percepção, mesmo subliminar, seria possível. Também acrescentaríamos que embora alguns detalhes possam ser inferidos devidos a efeitos físicos mais duradouros, por exemplo, a colocação dos eletrodos do desfibrilador à queimaduras ou desconfortos no peito, o fato de que as compressões torácicas à dores no peito ou costelas quebradas e a colocação de um IV ao fato de que o IV continuava lá no despertar, estes detalhes sozinhos não podem explicar a correspondência íntima do relatos da sequência de eventos do paciente com os registros médicos, nem os detalhes que são puramente visuais em natureza, tais como os comandos do desfibrilador e as agulhas no caso 4.
Sam Parnia (2006, p. 77) documentou um segundo exemplo de percepções verídicas durante uma OBE, um relato de Richard Mansfield, um experiente cardiologista que era o chefe de equipe cardíaca ressuscitando um homem de 32 anos numa parada cardíaca. O paciente foi observado inicialmente sem pulso, sem respiração e estava em assístole (um eletrocardiograma completamente plano). A ressuscitação incluiu entubação, ciclos de três minutos de compressões torácicas, adrenalina e atropina. A despeito desses esforços, por um período maior que 30 minutos, o paciente permaneceu sem pulso e em assístole. Antes de encerrarem os esforços, Mansfield checou novamente se o monitor cardíaco e cabos estavam funcionado adequadamente e se não havia pulso. A ressuscitação foi parada e o grupo aceitou que o paciente estava morto. Mansfield deixou a sala para escrever os registros médicos e saiu por 15 minutos. Ele reentrou na sala para checar quantas doses de adrenalinas haviam sido administradas e notou que o paciente aparentava estar definitivamente mais ruborizado que quando o médico deixou a sala. Mansfield observou de novo a virilha do paciente e sentiu um pulso. A ressuscitação foi continuada e o paciente, por fim, estabilizado e transferido para a terapia intensiva.
Cerca de uma semana depois, Mansfield entrevistou o paciente; ele não havia sofrido qualquer dano cerebral, a despeito de estar em assístole por mais de 30 minutos e sem qualquer assistência em termos de compressão cardíaca ou oxigênio por outros 15 minutos. Mais ainda, o paciente descreveu como ele havia observado tudo de cima e descreveu em detalhe tudo o que aconteceu: tudo que o médico disse e fez no procedimento, incluindo a saída do quarto, voltando mais tarde, observando o paciente, revendo o pulso e reiniciando a ressuscitação. O paciente foi capaz de recontar todos esses detalhes corretamente, de acordo com Mansfield.
Durante os períodos de compressão torácica nessa ressuscitação, é provável que alguma atividade elétrica cerebral tenha se iniciado, mas, uma vez que o paciente permaneceu em assístole, tão logo as compressões torácicas pararam, a isquemia cerebral global iria continuar e o cérebro retornaria à isoeletricidade. Em algum momento depois que Mansfield deixou o quarto, o coração do paciente deve ter reiniciado espontaneamente. Contudo o paciente permanecia inconsciente e foi finalmente estabilizado e transferido à terapia intensiva. A despeito dos prováveis períodos intermitentes de isoeletricidade cerebral, o paciente era capaz de perceber todos os eventos da ressuscitação de cima. Em particular, o paciente acuradamente descreveu a decisão de parar a ressuscitação, e o médico deixando a sala, um momento quando o paciente foi confirmado pelo médico como ainda sem pulso e em assístole, consequentemente muito provavelmente em completa isoeletricidade cerebral. Os detalhes do relato do paciente não foram descritos por Mansfield, mas nós podemos assumir que as percepções do paciente ocorreram sem lapsos de consciência, assim como quando a atividade elétrica poderia ter recomeçado. Tivesse havido um lapso de consciência, a descrição do paciente de periodicamente começar a perder a consciência ou de ser puxado de volta ao corpo certamente teria sido notada.
Assim, temos um relato adicional de percepções verídicas durante uma aparente NDE/OBE, durante períodos de quase certa isoeletricidade cerebral, neste caso um relato não do próprio NDEr, mas da pessoa que seria mais capaz de verificar a acurácia dos detalhes das aparentes percepções do NDEr. Posteriormente, os detalhes foram verificados como completamente precisos dentro de uma semana do incidente. O relato de Mansfield merece posterior investigação independente, por exemplo, para reunir e correlacionar os detalhes de Mansfield, do paciente e de outro pessoal que esteve presente e de registro médicos escritos. Infelizmente, devido ao lapso de mais de 15 anos agora, tal investigação seria problemática (Parnia, comunicação pessoal, 25 Setembro de 2006). Um tratamento mais rigoroso de tais relatos de aparentes percepções verídicas no momento do evento médico forneceriam mais corroborações definitivas.
Um terceiro exemplo de aparente continuidade da consciência através de um período de cessação completa da atividade cerebral foi documentado por Sabom (1998). Pam Reynolds, 35 anos de idade, se submeteu a uma cirurgia em 1991 para um grande aneurisma da artéria basilar na base do cérebro. O complexo procedimento envolveu parada cardíaca hipotérmica que incluía a redução de sua temperatura corporal à 60°F, parando seu coração e sua respiração e drenando o sangue de seu cérebro (Spetzler, Hadley, Rigamonti, Carter,Raudzens, Shedd e Wilkinson, 1988). Neste ponto, Reynolds estava em “stand still” e, por todas as medidas, estava morta. O aneurisma foi então removido, seu sangue e sua temperatura corporal restaurados e seu coração e respiração reiniciados.
A anestesia foi induzida às 7:15 AM, os olhos de Reynolds foram tapados e fones de ouvido foram colocados que emitiam cliques de 100dB em 11 à 33 ciclos/segundo. Às 8:40, seu corpo foi coberto e por volta das 8:45 Reynolds experimentou uma OBE NDE, assim que o cirurgião começou a cortar seu crânio com uma serra cirúrgica pneumática especializada para acessar seu cérebro. Sua visão na OBE foi mais focada e clara que o normal. Como pairava sobre o ombro do cirurgião, ela notou que a serra lembrava uma escova de dente elétrica com um formato peculiar. Usava lâminas intercambiáveis que eram mantidas num container que lembrava um estojo vazio para colocar documentos. Reynolds também ouvia comentários de uma médica sobre suas veias e artérias serem muito pequenas. Reynolds continuou a ter uma profunda NDE envolvendo um túnel, entrando numa luz incrivelmente brilhante e o encontro com alguns parentes falecidos.
Durante o tempo de sua NDE, o procedimento cirúrgico continuou: o resfriamento sanguíneo começou às 10:50 e o coração de Reynolds foi parado às 11:05. O monitor EEG registrava isoeletricidade e o funcionamento do tronco cerebral, medido por pulsos elétricos em resposta aos cliques auditivos em seus ouvidos, indo quase a zero. Reynolds foi trazida ao “stand still” por volta de 11:25 com o sangue drenado de seu cérebro. A excisão cirúrgica do aneurisma foi completada e sua corrente sanguínea restabelecida. Neste momento, os monitores de EEG e do funcionamento do tronco cerebral mostraram retorno da atividade elétrica e a função cardíaca foi iniciada. Às 12:00 o coração de Reynolds foi em fibrilação ventricular e dois desfibriladores foram usados para reiniciá-lo. Em sua NDE, Reynolds foi trazida de volta do túnel por seu tio falecido e viu seu corpo. Ela não queria voltar para o corpo, porque parecia terrível a ela, que nem um cadáver. Contudo, com um pequeno empurrão, ela reentrou em seu corpo. Às 12:32, a válvula de desvio foi removida e os cortes cirúrgicos foram fechados. Neste ponto, Reynolds lembrou ouvir a equipe cirúrgica escutando uma canção em particular.
Mais tarde, Sabom verificou que as percepções de Reynolds sobre a serra cirúrgica e do comentário do médico sobre as suas veias eram exatas. No entanto, ambas estas percepções ocorreram ao redor de 8:45, enquanto Reynolds estava sob anestesia, e bem antes da isoeletricidade cerebral, que foi de aproximadamente 11:05 até talvez 11:45. Houve outro período breve de isoeletricidade, talvez 1-2 min de duração, durante o evento da fibrilação ventricular às 12:00. O momento do retorno ao corpo pode ser calculado entre aproximadamente 12:05 e o tempo dos procedimentos cirúrgicos de sutura, porque Reynolds podia identificar uma música sendo tocada ao fundo depois que tinha entrado de novo no seu corpo.
Neste relato, nós temos uma OBE NDE consciente com percepções de verídicas durante um procedimento cirúrgico mas não durante isoeletricidade cerebral. No entanto, a NDE continuou sem interrupção por um período monitorado de provavelmente 40 min de isoeletricidade do tronco cerebral e cortical que foi documentado. O relato de Reynolds não indica em qualquer ponto de sua NDE que sua consciência diminuía ou falhava, ou que ela era trazida de volta ao seu corpo, exceto após o reinício da função cardíaca, quando foi empurrada para ele. Assim, embora as percepções verídicas tenham ocorrido num ponto quando Reynolds estava sob anestesia e portanto inconsciente, elas ocorreram enquanto havia atividade elétrica de cérebro ainda plena. Não obstante, a fase inicial da OBE foi parte de uma experiência consciente contínua que alcançou um período extenso de isoeletricidade cerebral global.
Numa parada cardíaca, o início de isquemia cerebral global e de isoeletricidade cerebral causam a perda de consciência na maioria dos pacientes. No entanto, alguns pacientes experimentam uma continuidade de consciência, geralmente com uma perspectiva fora do seu corpo e olhando para baixo. O paciente geralmente não experimenta nenhuma perturbação na consciência (com exceção da mudança de perspectiva) num momento quando toda atividade elétrica de cérebro quase certamente cessou. O paciente experimenta uma consciência nítida e lúcida do ambiente físico e ainda possui todos os sentidos e atributos de consciência ordinária no corpo, a saber, percepção, volição, sentimentos, pensamento e memória de acontecimentos prévios. O paciente experimenta uma continuidade completa de consciência mesmo quando a atividade elétrica cerebral recomeça, até haver uma transição clara de volta ao corpo, o que aponta que a consciência do paciente continua, agora com uma perspectiva de dentro do corpo, ou o paciente torna-se inconsciente e acorda mais tarde no corpo. A NDE torna-se integrada intimamente na memória ordinária do paciente, como outras experiências da vida. Durante o período inteiro de consciência fora-do-corpo, o paciente aparenta estar completamente inconsciente e incapaz de responder ao pessoal médico.
Assim, o fenômeno de NDE durante a parada cardíaca, com experiências fora-do-corpo verídicas de ambientes físicos durante o período de isoeletricidade cerebral global, desafia a hipótese de que essa consciência é dependente das funções cerebrais. Ordinariamente esta hipótese é correta, porque a perda de atividade elétrica cerebral quase sempre resulta em inconsciência. No entanto, os casos raros de NDE durante as paradas cardíacas demonstram que há exceções notáveis. A fenomenologia destas exceções mostram que, uma vez separada da função cerebral numa NDE, a consciência do paciente continua numa OBE mesmo que a atividade elétrica do cérebro encerre e que a consciência continuará a operar independentemente até que haja um retorno o corpo. A consciência do paciente funciona com todos os atributos de consciência costumeira, numa continuidade da experiência autoconsciente que envolve o tempo em que o paciente esteve no corpo, separado pela experiência fora-do-corpo e no momento de retorno ao corpo. O paciente experimenta as transições para fora e de volta ao corpo como ocorrências naturais, embora raras, e pode integrar a experiência inteira numa memória como uma das experiências de vida.
A Veracidade da OBE NDE
O relato precedente da continuidade de consciência durante períodos de isoeletricidade cerebral global se baseia na validade das percepções verídicas durante a NDE/OBE, porque estas percepções estabelecem que a consciência de NDE ocorreu num tempo de isoeletricidade cerebral global ou inconsciência. A validade destas percepções depende de evidência corroborativa de que as percepções eram reais (isso é, “verídicas”) e que elas não podiam ter sido imaginadas, nem mentalmente podiam construídas em algum outro momento, por exemplo, tendo sido inferida da consciência sensória subliminar durante anestesia, do conhecimento geral prévio, de expectativas derivadas de experiências anteriores, de informação fornecida por outros depois do fato, de conseqüências físicas duráveis (por exemplo, dor ou queimaduras de uma desfibrilação) ou de suposições afortunadas.
Quando uma pessoa experimenta uma NDE com percepções fora-do-corpo dos arredores imediatos, o desejo natural está em verificar se os acontecimentos ou coisas percebidas foram reais e se realmente aconteceram. De modo geral, tais percepções são descobertas informalmente como verídicas, isso é, aparentam ser reais, foram verificadas com testemunhas e confirmadas. Em contraste, relatórios de percepções numa NDE que foram descobertas como não verídicas são raras.Jan Holden relatou os resultados preliminares de um estudo de casos de percepção pretensamente verídicas em relatórios de NDE que não poderiam ser resultado de percepção normal, que foram corroborados pelo NDEr ou outros. De 93 casos, 92% aparentaram completamente exatos, 6% com elementos tidos com exatos e errôneos e <1%>
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Experiências de Quase Morte e a Mente Auto-Consciente Independente
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Pesquisas sobre a sobrevivência da alma
De Mauricio Mendonça
(Publicado no Jornal da FEEC de Novembro de 2009)
O grande momento das experimentações cientificas dos fenômenos mediúnicos deu-se entre meados do século XIX e início do XX. Naquele período, encontramos grandes nomes de pioneiros, incluindo várias figuras da SPR (Society for Psychcal Research), de Londres. Os fenômenos estudados eram, basicamente, os macros, de efeito físico, tais como, materializações, moldes em parafina, voz e escrita diretas etc.
Como andam as pesquisas sobre a sobrevivência da alma, hoje em dia? Será que se confirmam os resultados atingidos por aqueles pesquisadores?
Muitos espíritas consideram que tais "repetições" não são necessárias, pois esses fenômenos já foram devidamente comprovados e repeti-las seria pura perda de tempo e esforço. Outros consideram importante que as pesquisas continuem, até que não haja mais nenhuma dúvida quanto à realidade dos fenômenos. Muitos céticos também acham perda de tempo, pois é "obvio" que não existe nada a ser demonstrado, pois fantasmas não existem.
Forçoso é reconhecer que a realidade de tais fenômenos ainda está longe de ser aceita pela comunidade científica. Quando muito, alguns toleram a idéia; a maioria ignora-a. Ha quem diga que o problema é deles, e que isso se dá por algum tipo de preconceito ou outros motivos menos nobres. Prefiro pensar que nós espíritas é que , não tivemos a devida competência para terminar uma tarefa tão bem executada, a princípio.
E agora? O que fazer? Essa situação ainda poderá ser revertida? Claro, e começa com a conscientização de que temos a responsabilidade de incentivar e produzir pesquisas genuinamente científicas. Um exemplo desse tipo de ação foi a publicação de trabalho acadêmico, que trata de aspectos espirituais, comparando transtornos psicológicos com mediunidade e demonstrando, através de uma pesquisa rigorosa, que a mediunidade, dentro de um contexto espírita, não pode ser encarada como uma psicopatologia, pois ao contrário é uma atividade saudável.
Também poderíamos facilitar que pesquisadores sérios possam ter acesso a possíveis fenômenos, que ocorram nos centros espíritas, ou com médiuns específicos (evidentemente, permitir com critérios bem avaliados). A comunidade espírita também deveria olhar para esse problema, com mais "simpatia", e promover cursos, encontros, palestras, além de espaços como este em jornal tratando sobre temas exclusivamente científicos.
Neste canto, trataremos de pesquisas contemporâneas como as do falecido professor Ian Stevenson, que conseguiu desenvolver uma valiosa pesquisa sobre a reencarnação, estudando casos de crianças no mundo todo, que alegam ter tido outra existência. Essas lembranças, na opinião do autor, sugerem a ocorrência de reencarnação. Há, ainda, as do Prof Gary Schwartz, que desenvolve um interessante trabalho sobre a comunicação mediúnica dentro da universidade, além disso estão em curso, pesquisas sobre EQM (experiência de quase morte) e TCI (transcomunicação instrumental).
terça-feira, 3 de março de 2009
O Conceito da Sobrevivência da Morte Corporal e o Desenvolvimento da Parapsicologia
Por Carlos S. Alvarado Ph.D.
(Traduzido por Mauricio Mendonça)
[Este artigo de Carlos Alvarado foi originalmente publicado no Journal of the Society for Psychical Research, Volume 67.2, Número 871, Abril de 2003. É apresentado aqui com a gentil permissão do autor, Carlos Alvarado, e de Zofia Weaver, editor do JSPR. Por favor visite o website da SPR em www.spr.ac.uk e o website da The Parapsychology Foundation em www.parapsychology.org]
SUMARIO: Alguns historiadores de psicologia e medicina consideram que conceitos e movimentos hoje considerados metafísicos e pseudo-científicos tiveram influências significativas em desenvolvimentos posteriores. Um exemplo em parapsicologia é o conceito de sobrevivência do corpo à morte. Idéias de sobrevivência foram ferramentas de definição de importantes momentos da história da parapsicologia.
Dois de tais momentos foram a fundação e o trabalho pioneiro da Society for Psychical Research (SPR) e o desenvolvimento do trabalho de J.B. Rhine e sua associação na Universidade Duke. O conceito da sobrevivência, encaixado dentro do movimento do Espiritualismo, ofereceu à SPR um conjunto de fenômenos a serem investigados, incluindo a mediunidade, as assombrações, as aparições e outras manifestações.
O trabalho acerca da sobrevivência conduzido por J. B. e Louisa E. Rhine na Universidade Duke afetou sua ênfase posterior no estudo de capacidades PSI dos vivos. Discute-se também que a sobrevivência teve influência no desenvolvimento de tais explicações não-espíritas da mediunidade como psi-entre-vivos e interferências da mente do médium. A literatura do espiritualismo contém mais discussões destas publicações do que é geralmente reconhecido. A Parapsicologia não se desenvolveu apesar da sobrevivência, mas em alguma extensão por causa dela.
[1] Isto é uma versão revisada da Gwen Tate Lecture patrocinada pela Society for Psychical Research, e apresentada em Londres em 4 de Outubro de 2001.
Introdução
A QUESTÃO da sobrevivência da morte corporal foi um dos problemas clássicos da pesquisa psíquica. Fenômenos como assombrações, aparições, visões de moribundos, poltergeists, e comunicações mediúnicas, mantiveram esta idéia viva através dos anos. Os fenômenos relacionados à Sobrevivência, em especial a mediunidade, geraram muitos posicionamentos.
Alguns exemplos são as opiniões contrárias de Charles Richet (1924) e Oliver J. Lodge (1924), e o criticismo do investigador psíquico italiano Ernesto Bozzano (n.d. a/1926) e René Sudre (1926). Cesar de Vesme fornece-nos com uma caracterização boa destes debates: “quando o autor publica um livro para manter a hipótese espiritualista, um outro escritor publica um outro livro para suportar a tese contrária, e vice-versa. As duas doutrinas remanescem uma na cara da outra como dois cães chineses”(De Vesme, 1928/1931, Vol.1, p.283).
O debate sobre a sobrevivência continua na nossa era e não é provável que seja resolvido em breve [2]. Entretanto, o interesse histórico dentro da pesquisa sobrevivência psíquica pode ser mais do que o estudo das controvérsias que a idéia gerou, e mais do que apenas uma avaliação da pesquisa conduzida. Neste artigo eu discutirei alguns aspectos da influência da idéia da sobrevivência à morte na parapsicologia. Ao comentar sua importância eu discutirei que o conceito da sobrevivência (através do espiritualismo) era uma força principal em dar forma aos momentos fundamentais no histórico do campo, e em dar forma à agenda da pesquisa. Além disso a questão da sobrevivência contribuiu para o desenvolvimento de processos psicológicos ou parapsicológicos alternativos como explicações para fenômenos relacionados à sobrevivência.
[2] Veja, por exemplo, as discussões entre Braude (1992a, 1992b) e Stevenson (1992), e entre Cook (1996, 1997) and Almeder et al.(1997).
Estendendo Conceitos na Ciência e na Pesquisa Psíquica
A historia da ciência mostrou que a pesquisa científica não é guiada unicamente por uma questão abstrata da verdade, nem meramente seguindo os nossos acertos empíricos e com mais estudos adicionais. Um dos fatores extra-científicos que afeta o desenvolvimento da ciência é a influência de conceitos e de idéias que se ramificam. Estes conceitos influenciam a geração de hipóteses, os tópicos de estudo, e especialmente a forma que as observações e os resultados experimentais são interpretados. As Filosofias materialista e espiritualista, por exemplo, afetaram a ciência de maneiras diferentes. Alguns exemplos disto são “a filosofia mecânica” do décimo sétimo século e a filosofia natural do décimo nono. Uma miríade de conceitos como o vitalismo e a evolução foram influenciados no desenvolvimento da ciência natural e comportamental. Um conceito que se ramifica dentro da parapsicologia tem sido o conceito da sobrevivência da morte corporal, e mais extensamente, o conceito de transcendência das limitações físicas.
Não há nenhuma dúvida que muita coisa do que chamamos pesquisa psíquica e de parapsicologia foi inspirado pela busca do transcendental. Catherine Crowe (1848) escreveu sobre o “lado noite da natureza,” o que significava que um mundo espiritual foi revelado a nós através das premonições, clarividências, aparições de vivos e dos mortos, poltergeists, e outros fenômenos. As publicações de investigadores mais antigos têm mostrado claramente que a busca pelo transcendental, ou o espiritual, ou o aspecto não-físico da humanidade inspirou muitos para se envolverem com parapsicologia. De fato, muitos destes autores discutem que os achados da pesquisa psíquica suportam o conceito da alma ou de dimensões não-físicas da existência humana.
Em seu livro The Unknown [O Desconhecido], o astrônomo francês Camille Flammarion (1900) apresentou muitos exemplos de aparições e de outros fenômenos. Escreveu: “Estes fenômenos provam, penso, que a alma existe, e que é dotada com faculdades desconhecidas atualmente”(p.485). Indicações similares sobre as implicações das pesquisas psíquicas podem ser encontradas em Human Personality and Its Survival of Bodily Death [Personalidade Humana e sua Sobrevivência à Morte Corporal] (1903) de Frederic W. H. Myers, em Body and Mind [Corpo e Mente] (1911) de William McDougall, e em Discarnate Influence in Human Life [Influência Desencarnada na Vida Humana](n.d.b), de Ernesto Bozzano. Em seu livro The Reach of the Mind [A Pesquisa da Mente], J. B. Rhine (1947) discutiu:
“As pesquisas psi mostram que a mente humana pode escapar de limites físicos em determinadas circunstâncias… Conformemente uma diferença distinta entre a mente e a matéria, um dualismo relativo, foi demonstrado pelas experiências psi… ”
(p.205).
Alguns podem considerar estas perspectivas no máximo, metafísicas, e no pior dos casos, não científicas. Mas, não obstante como devem ser vistas, tais considerações tiveram papel importante no conjunto do desenvolvimento da pesquisa científica para os fenômenos psíquicos de variadas maneiras. Enquanto isto possa parecer óbvio a alguém, tais aproximações na história da ciência geraram muita controvérsia. De fato, eu tenho impressão que muitos parapsicólogos atuais parecem pensar que a parapsicologia moderna representa tentativas bem sucedidas de superar o espiritualismo, o interesse na sobrevivência e similares. Eu vejo a historia como um campo complexo e interativo, no qual a parapsicologia desenvolveu-se como uma ciência apesar da questão da sobrevivência e espiritualismo, mas em alguma extensão por causa destes fatores.
A Influência das Idéias Místicas e Ocultas na Ciência
Tradicionalmente, a historia da ciência ficou conceituada como o triunfo da razão e da racionalidade sobre as velhas idéias místicas e de ocultismo. Não por menos, a historiografia da revolução científica e o décimo sétimo século têm mudado durante as últimas três décadas. Alguns dos novos historiográficos sustentam que o Hermeticismo, o Neoplatonismo, a astrologia, ou a alquimia e outras áreas do oculto tiveram influência no desenvolvimento da ciência moderna.
Uma das primeiras vozes na nova historiografia foi Frances Yates (1972/1978), que discutiu em seu livro The Rosicrucian Enlightenment que “a tradição Hermética-Cabalistica-… no acontecimento da ciência Renascentista… não perdeu a força com a vinda da revolução científica… estava ainda presente no fundo das mentes das figuras anteriormente tomadas inteiramente como representantes da emergência completa de tais influencias “(p.232). Embora alguns tenham considerado extrema a posição de Yates (por exemplo, Vickers, 1984a), alguns historiadores mais antigos como Allan Debus (1978) discutiram que as antigas idéias herméticas bem como conceitos de Paracelso afetaram o desenvolvimento da filosofia mecânica que se desenvolveu no décimo sétimo século, que tinha sido explicada tradicionalmente unicamente por observações e pela pesquisa físicas, astronômicas e biológicas (Westfall, 1977). Estudiosos atentaram que o trabalho de Isaac Newton também mostra esta mistura das tradições, especialmente com relação à alquimia. Richard Westfall (1980) e Betty Jo Dobbs (1991) discutiram estes estudos alquímicos de Newton que influenciaram a física de seu Principia. Entretanto, outros historiadores foram opostos fortemente a este ponto de vista da historia da ciência. Brian Vickers (1984a), por exemplo, discutiu que haviam duas mentalidades separadas, a científica e a oculta. Vickers acredita que as antigas idéias místicas não influenciaram o desenvolvimento da ciência de nenhuma forma significativa. Há outros pontos de vista, tais como aqueles que aceitam a influência do oculto no desenvolvimento da ciência mas postulam um impacto de baixo nível (veja a antologia editado por Vickers, 1984b). Em resumo, alguns discutem que a ciência moderna se desenvolveu quando a racionalidade e a observação empírica abandonou as visões místicas e ocultas da natureza (pseudociência para alguns), enquanto outros viram que o místico e o oculto contribuíram também significativamente ao que foi chamado mais tarde de ciência.
Um exemplo do papel positivo da assim chamada pseudociência é a influência da frenologia na neurologia. Em um ponto historiadores da neurologia não tinham nenhum uso para a frenologia em seus estudos. Mas o trabalho revisionista anterior de Ackerchnect (1958), e o trabalho mais antigo de Young (1970), muito fizeram para contribuir à idéia que conceitos frenológicos foram importantes para o desenvolvimento da neurologia de modo que a frenologia continuou a mudar o clima do pensamento e apoiou noções de localização de funções motoras e sensoriais no cérebro.
Mais relevante para nosso assunto da matéria em questão é a mudança do ponto de vista dentro da historiografia da psiquiatria e das idéias da mente subconsciente como expostas por Ellenberger (1970) em seu livro The Discovery of the Unconscious [A Descoberta do Inconsciente]. Ellenberger postulou que o espiritismo e a pesquisa psíquica influenciaram positivamente o desenvolvimento da psicologia dinâmica e a psiquiatria, fenômenos mediúnicos como a escrita automática (entre outros fatores) forneceram o ímpeto para o desenvolvimento de idéias da mente subconsciente. O trabalho de Alfred Binet (1892/1896), William James (1890b), Pierre Janet (1889), e Frederic W. H. Myers (1903), entre muitos outros, são os exemplos disto. O trabalho mais recente dos historiadores Adam Crabtree (1993), Alan Gauld (1992), Pascal Le Maléfan (1999), e Eugene Alfaiate (1996) mostraram como espiritualismo e a pesquisa psíquica interagiram ativamente com aqueles outros campos que estudaram a mente e o comportamento humano em aspectos tais como o desenvolvimento da noção da mente subconsciente. Gauld e Crabtree mostraram que a literatura mesmérica e espiritualista tiveram influencia na construção das noções da mente humana. Quando Taylor discutiu que pesquisa psíquica nos Estados Unidos colidiu na psicoterapia na época de William James, Le Maléfan discutiu que durante metade do décimo nono século, a nosologia psiquiátrica francesa em alguns exemplos espelhou as reivindicações e fenômenos dos médiuns. Embora muito mais necessite ser feito para explorar as contribuições da pesquisa psíquica em outras áreas, este trabalho mostra uma clara - mas ainda não dominante - direção na história da psicologia e psiquiatria em que a pesquisa psíquica e o Espiritualismo são considerados serem mais do que aberrações culturais.
Seguindo esse conceito tradicional, eu discutirei - e não faço nenhuma reivindicação de ser original nesta afirmação - que o espiritualismo em geral, e o conceito de sobrevivência à morte em particular, tiveram um fator de influência no desenvolvimento da parapsicologia de diferentes formas.
A Influencia do Espiritualismo em Importantes Momentos da História da Parapsicologia
Esta parte do artigo é talvez a mais óbvia e auto-evidente, particularmente para aqueles familiarizados com a história da pesquisa psíquica. O conceito de sobrevivência foi básico para o início e o desenvolvimento de tais momentos chaves na história da parapsicologia como trabalho inicial da Society for Psychical Research (SPR) e o trabalho de J. B. Rhine e seus associados na universidade Duke.
A Society for Psychical Research
Seria bom termos em mente que o Espiritualismo foi o processo final de movimentos e crenças anteriores. O conceito de comunicação com os espíritos de pessoas falecidas bem como o registro de fenômenos psíquico de todas as ordens tem considerável precedente histórico. Para encontrar antecedentes relevantes alguém somente tem que estudar trabalhos como os de J. E. Mirville, Pneumatologie: Des esprits et de leurs manifestations fluidiques (1854); de William Howitt, The History of the Supernatural [A História do Supernatural] (1863); de Frank Podmore, Modern Spiritualism (1902); de Cesar de Vesme, A History of Experimental Spiritualism (1928/1931), e o trabalho de outros historiadores (Dingwall, 1930; Inglis, 1977; Paton, 1921). Claramente o fenômeno do moderno espiritualismo pode ser encontrado em épocas anteriores e foram fortemente influenciadas por outro movimentos tais como o mesmerismo, além de outros. Seja como for, foi o espiritualismo, atuando por si mesmo e como um filtro e comunicador de antigas crenças e observações, que ditaram a agenda da pesquisa psíquica.
Alan Gauld (1968) deixou claro que os primeiros pesquisadores da SPR - indivíduos tais como Frederic W. H. Myers e Henry Sidgwick , foram motivados a estudar uma variedade de fenômenos físicos pelo Espiritualismo e por princípios não-materialistas.
Seu trabalho representou uma tentativa de usar a observação sistemática e a experiência para determinar se há mais no universo do que materialismo ditou. Como J. Fraser Nicol (1972) lembrou-nos em sua revisão de livro do Gauld, alguns homens que formaram o primeiro conselho da SPR eram espiritualistas, entre eles William Stainton Moses, Edmund Dawson Rogers e Hensleigh Wedgwood.
O primeiro volume dos Proceedings of the Society for Psychical Research apresentou a agenda da Sociedade no agora clássico “Objects of the Society” (1882). Fora as seis comitês estabelecidas [Out of six committees established], a quarta e a quinta - sobre aparições e casas assombradas, e sobre fenômenos físicos - eram uma conseqüência direta dos interesses dos espiritualistas britânicos durante o décimo nono século passado.
Ao tempo em que SPR foi fundada em Londres (1982), a Inglaterra tinha a poucas décadas a mediunidade de efeitos físicos e mentais [3]. A mediunidade foi uma importante área de discussão nos círculos britânicos. Livros tais como Mystic London [Londres Mísitica] (1875) do reverendo Charles Maurice Davies, uma coleção de memórias do oculto em Londres, relembra de quão confuso e incrível pareceram a alguns observadores na Bretanha, as práticas dos espiritualistas.
Davies (1875, p.290) refere-se ao famoso alongamento do corpo de D. D. Home, e a alguns outros fenômenos como os vôos de Mrs. Guppy, as materializações de Katie King, e as conferências em transe feitas por oradores bem conhecidos do espiritualismo como a Sra. Emma Hardinge Nriten e Sra. Cora L. V. Tappan. Georgina Houghton (n.d.) recontou em seu livro Evenings at Home in Spiritual Séance, como em 1859 ela disse para seu primo que “haviam algumas pessoas vivendo próximas a ela o que significa que os espíritos daqueles que nós perdemos poderiam comunicar-se conosco que continuamos sobre a terra” (p.1). Este é o início de longa vida de compromisso do espiritualismo e o desenvolvimento da própria mediunidade da srta. Houghton. Durante os próximos anos, os ingleses viram as perfomances de médiuns tais como Florence Cook, William Eglinton, Francis Ward Monck, William Stainton Moses, e muitos outros, alguns de bastante reputabilidade.
[3] Sobre Espiritualismo na Inglaterra veja Oppenheim (1985) e Podmore (1902).
A SPR não ignorou todo esse interesse na mediunidade, popularmente diz-se dirigida por entidades desencarnadas. Uma análise do conteúdo dos processos da SPR pelo tipo de artigos mostra que, de cerca de 204 artigos publicados entre 1882 e 1900, 23% foram relatórios de sessões. Entretanto, isto não reflete o número atual de artigos no qual o tema sobrevivência está incluído. Estes tópicos foram discutidos também em outras categorias, tais como artigos teóricos e revisões da literatura.
Embora ambos Barret (1886) e Crookes (1889) reportassem evidência positiva de mediunidade física nos processos da SPR, o restante das avaliações de alguns dos pesquisadores da SPR foram negativos. O artigo de Eleanor Sidgwick (1886b) “Result of a Personal Investigation into the Physical Phenomena of Spiritualism” [Resultado de uma Investigação Pessoal do Fenômeno Físico do Espiritualismo], o qual estudou os médiuns Kate Jencken (Kate Fox), Annie Eva Fay, Catherine Elizabeth Wood, Annie Fairlamb, e Henry Slade, é um exemplo disso. O artigo focou em sessões que tiveram lugar durante os anos de 1870, antes da fundação da SPR. Outra avaliação negativa da mediunidade fisica escrita por Sidgwick foi sua discussão sobre o médium William Eglinton (Sidgwick. 1886a) e o fenômeno de fotografia de espíritos (Sidgwick, 1891).
A mediunidade mental foi discutida em um momento posterior, assim pode ser visto em artigos sobre a mediunidade da Sra. Leonora Piper publicado por Richard Hodgson (1892), Walter Leaf (1890), Oliver Lodge (1890), e Frederic Myers (1890) nos Proceedings da SPR. Este trabalho foi essencial para o desenvolvimento de todos os tipos de edições teóricas (embora, como veremos depois, antes da fundação da SPR, espiritualistas discutiram essas questões em seus escritos). A SPR trabalhou com Piper, começou a estudar a possibilidade de comunicação com espíritos, tornando-se a primeira tentativa sistemática para estudar a comunicação mediúnica sob condições controladas. Foi também a primeira análise detalhada das personalidades de transe publicadas na literatura de pesquisa psíquica. William James (1886, 1890a) conduziu alguns trabalhos preliminares, mas seus esforços não podem ser comparados em termos de organização da SPR ou a seus detalhes.
Os membros da SPR fizeram algumas questões tais como: Qual era a fonte das informações verídicas que vinham através da Sra Piper? Eram os controles da Sra. Piper espíritos ou personalidades secundarias do médium em transe? Como o membro da SPR Walter Leaf comentou sobre Phinuit, um dos controladores da Sra Piper:
Que Dr. Phinuit é somente um nome para uma personalidade secundária da Sra Piper, assumindo o nome e agindo com a atitude e a consistência tal qual é mostrada pelas personalidades secundárias em outros casos conhecidos; que neste estado anormal há um excepcional poder de leitura do conteúdo das mentes dos participantes; mas que esse poder está longe de ser completo.
[Leaf, 1890, p. 567].
Muitos outros comentaram sobre a consistência do comunicador, estudos que nos deram insights pioneiros dentro da dinâmica da mediunidade. Oliver Lodge escreveu em 1890 que:
As mensagens e comunicações… são usualmente dadas através de Phinuit como um repórter. E ele relata algumas vezes na terceira pessoa, algumas vezes na primeira. Ocasionalmente, mas muito raramente, Phinuit parece dar lugar completamente a outra personalidade, amigo ou parente, que então comunica com algo de seu antigo jeito e individualidade; tornando-se freqüentemente muito expressivo e realístico.
[Lodge, 1890, p. 453].
Em adição, muitos exemplos de escrita e fala automática conduziram Frederic Myers (1884, 1885, 1887, 1889a) a iniciar suas explorações da mente subliminal e argumentou que alguns fenômenos mediúnicos podes ser explicados sem o recurso da noção de um agente desencarnado. O título de seu artigo de 1884, “On a Telepathic Explanation of some so-called Spiritualistic Phenomena” [Sobre a Explanação Telepática de alguns dos chamados Fenômenos Espiritualistas], representa uma prévia indicação de suas idéias. Enquanto Myers não era o único em seu apelo para o processo inconsciente como uma explicação de alguns fenômenos como mediunidade automática (por ex. Caspenter, 1877; Von Hartmann, 1885) seus conceitos têm um nível e eficiência de argumentos que seus predecessores não tinham. Myers (1903) eventualmente desenvolveu um modelo que era certamente diferente das concepções mais mecânicas postas adiante pelos teóricos da mente inconsciente Ele, de fato, chegou a argumentar pela supremacia e independência da mente em relação ao corpo. Além disso, ele conduziu sem precedentes, cuidadosa e detalhada análise do material produzido para ele pelos espiritualistas. Sua análise da escrita automática da esposa do Reverendo P. Newnham (Myers, 1885) é um exemplo disso[4].
[4] É interessante notar que espiritualistas contemporâneos eram críticos do eles acreditaram serem tentativas de Myers de reduzir o fenômeno espiritualista a um processo subliminal (p.ex., Haughton,1886; Noel, 1886; Wedgewood, 1886).
A respeito de aparições e assombrações, alguém só precisa se voltar para as páginas de The Night-Side of Nature [O Lado Noturno da Natureza] de Catherine Crowe (1848), Spirits Before Our Eyes [Espiritos ante nosso Olhos] de Whilliam H. Harrison (1879), e Foot falls on the Boundary of Another World de Robert Dale Owen (1860) para encontrar uma variedade de estórias de fantasmas que foram conhecidas pelos pioneiros da SPR. Pode-se lembrar com apreciação os relatórios pelo comitê da SPR em casas assombradas (Barrett et al., 1882; Bushell et al., 1884). Este comitê registrou muito fascinantes casos que influenciaram posteriores idéias sobre o assunto (por ex. Bozzano, 1919/1925). Por exemplo, no segundo relatório do comitê o vigário da casa paroquial afirmou que ele e sua esposa ouviram um som “como o barulho de barras de ferro caindo fortemente no chão” (Bushell et al., 1884, p.145). Esta foi a mais dramática de várias manifestações auditivas. O som foi ouvido coletivamente e por visitantes que não sabiam sobre as assombrações. Além disso, o som mostrou uma periodicidade. Era ouvido somente as 2:00 da manhã de domingo.
Sobre os anos de interesse em assombrações e aparições dos mortos, o clássico “Record of a Haunted House”[Registro de uma casa assombrada] de R. C. Morton (Morton, 1892) e o artigo anterior “Notes on the Evidence, Collected by the Society, for Phantasms of the Dead,” [Notas de evidencia, Coletado pela Sociedade, por Fantasma dos Mortos] de Eleanor Sidgwick (1885), são claros exemplos disso. A Sra Sidgwick disse que a SPR coletou cerca de 370 narrativas “de fenômeno, não claramente físicos, e que os crentes em fantasmas estavam aptos a considerá-los como pessoas falecidas” (p. 70). Ela mostrou outras possíveis explicações para estes casos ao indicar que não poderia aceitar inteiramente nem rejeitar completamente uma explicação em particular. Além dessas haviam idéias de influência de espíritos, tais como uma presença psíquica ou uma alucinação telepática causada por indivíduos falecidos. Outras idéias incluíram comunicações telepáticas entre vivos, e a idéia de influencias psíquicas na casa percebida pelos pesquisadores. O ultimo conceito que veio a ser conhecido depois como a teoria da psicometria de assombrações, e foi discutido muitos anos depois em artigos dos Proceedings da SPR por H. H. Price (1939; veja também Bozzano, 1919/1925).
Publicações posteriores sobre aparições de mortos incluem fascinantes artigos teóricos que mapearam futuras discussões das aparições dos mortos. Os pioneiros da SPR essencialmente examinaram a idéia da sobrevivência que foi aparentemente expressada por esses fenômenos de aparições e analisaram o problema do ponto de vista de uma variedade de possíveis explicações. O artigo “On Recognised Apparitions Occurring More than a Year After Death” [Sobre o Reconhecimento de Apariçoes mais de um ano após a morte] de Myers (1889b) é um exemplo. Neste artigo, Myers conceitualizou estas manifestações em termos da suposta classe de atividade post-mortem e de espíritos de vivos. Ele escreveu:
Em primeiro lugar, eu acredito que telepatia … existe tanto entre espíritos encarnados e entre espíritos encarnados e desencarnados. Eu sustento que há uma serie contínuas de manifestações de tal poder, começando com experimentos de transferência de pensamento e hipnotismo a distancia, processos experimentais através de aparições e aparições coincidentes com a crise da morte, e terminando com aparições após a morte; - os resultados, na minha visão, do exercício continuado da mesma energia do espírito do falecido.
[Myers, 1889b, pp. 63-64].
Frank Podmore (1889) propôs um modelo diferente em um artigo intitulado “Phantasms of the Dead from Another Point of View” [Fantasma de Mortos sob Outro Ponto de Vista]. Seguindo as idéias iniciais da Sra. Sidgwick, Podmore argumentou que casos evidenciais de aparições dos mortos são alucinações telepáticas. A explicação atual seria encontrada, ele escreveu, “na prolongada latência e subseqüente emergência de uma impressão recebida de um homem morto antes da sua morte…” (Podmore, 1889, p. 308).
Este interesse em assombrações e aparições de mortos dentro da SPR teve um interesse paralelo em alucinações, especialmente alucinações de vivos. O trabalho do comitê de literatura foi certamente influenciado pelos registros de ESP espontânea e aparições de vivos tais como fontes espiritualistas mencionadas nos livros de Crowe, Harrinson, e Owen. O terceiro relatório do comitê literário indicou:
Aparições … são elementos próximos ao conhecimento religioso do homem; e a discussão de sua realidade sempre teve aspecto de controvérsia religiosa. Mas as aparições que tiveram mais associação com idéias religiosas foram aquelas dos mortos, e nós faremos o máximo para evitar terrenos controversos, e também para manter nosso objetivo no limite gerenciável, vamos excluir essa classe.Vamos considerar só as supostas assombrações de pessoas vivas, o senso-comum de que são aparições dos mortos, ou assombrações de pessoas próximas do momento de morte.
[Barrett et al., 1884a, p. 111].
O modelo anterior de alucinações, agora classicamente associado ao trabalho inicial da SPR, foi discutido em dois artigos produzidos pelo Comitê de Literatura em 1884 (Barret et al., 1884a, 1884b). Eventualmente, estes esforços levaram ao primeiro exame das alucinações e ao estudo de variadas formas das aparições de vivos, Gurney, Myers e Phantasms of the Living [Fantasmas dos Vivos] de Podmore (1886). Como é bem conhecido, o interesse culminou no famoso “Census of Hallucinations” [Censo de Alucinações] (Sidwick et al., 1894). Um dos propósitos do “Censo” foi estabelecer cientificamente uma relação entre a alucinação e a morte da pessoa representada pela alucinação. A noção de sobrevivência foi o ímpeto original por trás desse trabalho, mesmo se eventualmente os pesquisadores da SPR desenvolvessem diferentes modelos de explicações tal como de alucinações telepáticas.
Enquanto pode-se argumentar que o que eu acabei de discutir é bem conhecido, e que tais efeitos da idéia da sobrevivência e do espiritualismo são óbvios, nós devemos lembrar que o sentido de que é obvio é freqüentemente um pensamento posterior. A pesquisa psíquica seria muito diferente se ela tivesse sido afetada por outros movimentos e não pelo espiritualismo. Se o mesmerismo tivesse tido mais influencia que aquele (e ele teve considerável influência), talvez a SPR tivesse tido mais atenção para a idéia do magnetismo animal e para o similar conceito de força, o qual podia ter resultado na ênfase na medição, detecção e uso de tais forças. Houve alguns estudos da ação mesmérica conduzidos pelo Comitê sobre Mesmerismo (Barret, Gurney, et al., 1883) e por Gurney (1884), mas eles não continuaram depois dos primeiros três anos da existência da SPR. Uma aproximação mais baseada no mesmerismo pode ter incluído mais interesse na pesquisa Od de Reichenbach (1849/1851), o qual Reichenbach acreditava ser uma força universal. Od foi percebido por indivíduos sensitivos primeiramente como emanações de luzes por cristais, magnetos, e pelo corpo humano. [A more mesmerism-based approach may have included more interest in and research on Reichenbach’s (1849/1851) Od, which Reichenbach believed was a universal force. Od was perceived by sensitive individuals primarily as lights emanating from crystals, minerals, magnets, and the human body]. A SPR abandonou cedo este tópico da pesquisa logo depois da fundação da sociedade (Barret, Close, et al., 1883). Alem disso, uma pesquisa psíquica baseada no magnetismo animal podia ter tido mais interesse na área de saúde, o qual foi geralmente assumido envolver algum tipo de transferência de energia.
Se o Cristianismo tivesse mais influência no trabalho da SPR no século XIX, a pesquisa psíquica poderia então ter mais ênfase nos milagres como curas em santuários (ex. Myers e Myers, 1893) e aparições de Maria (ex. Marillier, 1891). Similarmente, o trabalho da SPR deveria ser diferente se a Teosofia tivesse tido mais influência que o espiritualismo. Em vez de médiuns e o estudo do suposto agente humano desencarnado, o campo poderia ter focado mais atenção aos chamados poderes dos mestres espirituais e ao estudo dos efeitos produzidos por “fonte espirituais não-humanas” (ex. Hodgson, 1885).
J. B. Rhine e Associados
Outro momento dessa historia, reconhecida geralmente como crucial para a parapsicologia, foram os estudos de Joseph Banks Rhine e seus colegas conduzidos na Universidade Duke. Rhine - e sua colega e esposa Louisa E. Rhine - foram profundamente influenciados pela idéia da sobrevivência e pelo Espiritualismo, mesmo se ele posteriormente chegou a sugerir que a parapsicologia não podia tratar do assunto de uma forma significativa cientificamente (p.ex., J. B. Rhine, 1974)[5]..
[5] No prévio trabalho de Rhines veja Brian (1982), Mauskopf and McVaugh (1980), Rhine and Associates (1965), e L. E. Rhine (1982). Em Rhine and the survival issue [Rhine e a questão da Sobrevivencia] ver Chari(1982).
Em seu livro New Frontiers of the Mind [Novas Fronteiras da Mente] (1937), Rhine recontou como ele ouviu uma leitura de Arthur Conan Doyle sobre espiritualismo no inicio da década de 1920. Embora ele não estivesse convencido dos princípios Espiritualistas, Rhine ficou impressionado pelo zelo e atitude positiva de Doyle. Rhine escreveu, “se há uma medida da verdade que ele acredita… seria de importância transcendental” (p. 54).
Em 1926, Rhines fez importantes experiências com médiuns. Houve uma seção com Margery, médium de efeitos físicos, que alegava que seu falecido irmão Walter podia produzir materializações e outros fenômenos através dela. Uma simples sessão convenceu-o que a performance era fraudulenta (Rhine & Rhine, 1927) (6). No mesmo ano o pesquisador psíquico Walter Franklin Prince ofereceu pagar a Rhine se ele tivesse uma sessão com a médium mental Minnie Soule (L. E. Rhine, 1982, pp. 104-105), conhecida na literatura mais antiga como Sra Chenoweth [7]. Dennis Brian (1982, p. 53), em sua biografia de Rhine, The Enchanted Voyager [O Viajante Encantado] notou que esses participantes, J. B. e Louisa tiveram tarefas diferentes. Enquanto Louisa tomou notas literalmente num quarto separado, J. B. ficou em outro com a Sra. Soule, interrogando a médium. Os resultados, Louisa escreveu em seu diário, foram decepcionantes (L. E. Rhine, 1982, p. 105).
[6] Sobre a mediunidade de Margery veja Tietze (1973). A respeito de Margery e Rhines veja Brian (1982, capitulo 4), Matlock (1987), e Tietze (1973, pp.107-114).
[7] Minnie Soule foi uma médium Americana estudada antes por Lydia Allison (1929) e James H. Hyslop (1910, pp.722-776). Ela usou o pseudônimo de Sra Chenoweth (veja também Tubby, 1941).
Em 1927, John F. Thomas, servidor do sistema de ensino publico de Detroit, aproximou-se de Rhine para ver ele trabalharia com ele no registro de comunicação mediúnica (L. E. Rhine, 1982, pp. 111-113). Thomas fazia seções com Soule e outros médiuns tentando se comunicar com sua falecida esposa[8]. Rhine aceitou e Tomas perguntou a ele depois de alguns anos se ele e sua esposa iriam para Universidade Duke para trabalhar com William McDougall sobre seus registros de Mediunidade. McDougall era então o chefe do Departamento de Psicologia de Duke. Seu primeiro trabalho em Duke foi centrado no material de Thomas e somente mais tarde eles ramificam para a pesquisa ESP.
[8] Sobre Thomas ver Dale (1941).
Rhine foi com Thomas para continuar a assistir na avaliação das sessões com Sra Soule, bem como com outros médiuns mentais como Eileen J. Garrett e Gladys Osborne Leonard. Thomas eventualmente obteve o grau de doutorado de psicologia na universidade Duke por seus estudos de comunicações mediúnicas. Em seus livros Case Studies Bearing Upon Survival [Estudos de Casos Representativos de Sobrevivência] (Thomas, 1929) e Beyond Normal Cogmition [Além da Cognição Normal] (Thomas, 1937), Thomas mencionou que tanto J. B. quanto Louisa Rhine ajudaram-no de várias formas.
O efeito desses primeiros trabalhos de mediunidade foram dar a Rhine em primeira mão a apreciação do que muito dos outros pesquisadores já haviam percebido, as dificuldades envolvidas em determinar a fonte da informação produzida. Numa carta que escreveu para Prince em 23 de novembro de 1927, J. B. Rhine disse: “Estamos agora organizando nossos pensamentos sobre a questão do que nós requerimos como prova do supra-normal, quantas hipóteses razoáveis temos visto para serem a fonte da informação supranormal, e agora podemos descobrir então qual dessas é a correta…” (citado em Brian, 1982, p.68).
Entretanto, posteriormente Rhine foi mais positivo em relação a sobrevivência. Em 21 de Março de 1929 numa carta à Prince sobre os registros sobre a mediunidade de Thomas, Rhine disse: “Nós temos uma grande e real apreciação pelo Sr. T, e estamos convencido que seu material é em parte no mínimo, evidências genuínas, que das hipóteses disponíveis para nosso conhecimento, certamente a interpretação espírita é a mais aceitável” (citado em Mauskopf & McVaugh, 1980, p. 328).
Esta atitude positiva acerca da sobrevivência e dos estudos foram refletidos na idéia desenvolvida por Rhine em torno de 1928 e 1929. Isto foi estabelecido pelo ” Institute for Experimental Religion ” (Mauskopf & MvVaugh, 1980, p.87). Parte desse trabalho conduzido por este instituto foi a evidência para a existência da alma, incluindo relatórios tais como o fenômenos de aparições sugestivas da sobrevivência. Poucos anos depois, em um artigo de 1933 publicado no Journal of the Society for Psychical Research no qual ele comentou sobre o artigo sobre a sobrevivência escrito por H. F. Saltmarsh (1932), Rhine (1933a) argumentou que os estudos da sobrevivência devem focalizar na evidencia de propósito ou motivação. Em suas palavras:
Os tipos de evidencia para as quais eu me referi como as que oferecem maiores valores de prova a favor da teoria da sobrevivência são aquelas que claramente mostram propósitos que são apropriados somente para uma pessoa, o suposto espírito identificado. O ponto em mente é que motivação peculiar é mais indicativa de que um ‘agente’ envolvido tenha dados da vida passada da pessoa em questão, fatos descrevendo sua personalidade, ou que alegadas manifestações fisicas sejam devidas a seus esforços.
[p. 36].
Claro que isto não é novidade. A questão do propósito ou intenção deve ser avaliada antes por cada pesquisador como Hyslop (1919) e Myers (1903), para citar apenas dois proeminentes exemplos. Enquanto Rhine não oferecia nada novo, nem uma solução para diferenciar espíritos e psi entre fontes vivas, o artigo mostra sua voluntariedade em considerar a sobrevivência em 1933 [as late as 1933]. De fato, é interessante notar que em comunicado adicional publicada depois no mesmo ano no SPR Journal, Rhine se referiu a sobrevivência como uma questão “das mais importante que nós discutimos nesse campo” (Rhine, p. 125).
Enquanto Rhine continuou interessado na sobrevivência por toda sua vida (ex. Rhine, 1943, 1956, 1960, 1974) quando ele publicou sua clássica monografia Extra-Sensory Perception em 1934 ele claramente decidiu que a questão da sobrevivência precisava ser arquivada. Rhine falou da sobrevivência no primeiro capitulo do seu livro. Ele começou classificando os tipos de fenômenos parapsicológicos. Incluindo ESP em geral,incluindo rabdomancia, psicometria e comunicações verídicas de espíritos. Fenômenos psíquicos tais como telecinese, luzes, mudanças de temperatura e aportes, ele designou como parapsicologia psíquica. A categoria de parapsicologia psicológica inclui materializações, alongamentos e estigmas. Possessão negativa e saudável foram consideradas parte dos fenômenos patológicos. Finalmente o fenômeno da parapsicologia literária incluindo a produção de escrita ou artísticas aparamente além da capacidade do individuo.
Esta classificação interagiu com o agente. Agente corpóreo significa referir-se aos efeitos de pessoas vivas e agentes incorpóreos referentes a efeitos de espíritos desencarnados. Rhine escreveu:
Parece haver quatro casos gerais possíveis neste princípio: Um agente corpóreo pode influenciar outro, como em telepatia, ou um corpóreo pode ser a única personalidade envolvida, como em clarividência. O Agente incorpóreo … pode influenciar um corpóreo, como nos chamados experimentos ‘mediúnicos’. Ou, quarto, a personalidade incorpórea parece ser capaz de produzir um fenômeno sem a ajuda de uma personalidade corpórea com capacidades parapsicológicas, e isto é tido como ‘invasões’ chamadas ‘ hauntings’.[and in the seeming ‘invasions’ called ‘hauntings’.]
[J. B. Rhine, 1934a, pp. 8-9].
Rhine afirmou que seu livro tratava somente dos efeitos ESP produzidos por dois indivíduos vivos (testes de telepatia com um emissor) e com um individuo (testes de clarividência sem emissor). Ele não estava certo sobre como classificar os efeitos nesse sistema, especialmente em se tratando de agente incorpóreo. Depois em seu livro Rhine argumentou que a tarefa em mãos foi duplicada. Primeiro, tinha-se que aprender sobre a telepatia e a clarividência através de tentativas para relatar cada fenômeno um para o outro e para outros fenômenos parapsicológicos tais como a rabdomancia [First, to learn about telepathy and clairvoyance through attempts to relate each phenomenon to each other and to other parapsychological phenomena such as dowsing]. Segundo, tinha-se que encontrar outras variáveis relacionadas ao seu funcionamento. Uma vez que estas tarefas terminassem, o fenômeno incorpóreo poderia ser explorado com mais detalhes seguindo um procedimento similar (J. B. Rhine, 1934a, p.147; veja também Rhine, 1934b). Mas este passo posterior no programa de pesquisa de Rhine mudando o foco para o agente incorpóreo, nunca concretizou-se - talvez porque a área do agente corporal provou ser mais difícil de explorar e mapear do que o esperado. Como Rhine escreveu depois, a questão da sobrevivência devia esperar por um melhor entendimento das habilidades Psi dos vivos:
“Para uma coisa, é necessário conhecer os limites e condições de operação do processo Psi antes de projetar experimentos adequados para trabalhar com a hipótese da sobrevivência. Somente quando tivermos evidencia de alguma coisa atrás da faixa de explicações de ESP e PK que a questão da sobrevivência começa”
(J. B. Rhine, 1947, p.214)
Infelizmente para os proponentes da sobrevivência, Rhine (1974) terminou argumentando que a sobrevivência era não-testável. Apesar disso, a sobrevivência foi um motivador importante no início do seu trabalho e um lembrete do quanto certas idéias e movimentos tiveram importantes, mas inesperados efeitos, na historia do desenvolvimento da parapsicologia.
Finalmente, há outra forma na qual Rhine foi afetado pelo espiritualismo. Isto foi sua crença que o fenômeno psíquico em geral poderia mostrar uma evidencia para o aspecto não-físico no ser humano, que é, a independência da mente e o corpo. Rhine discutiu essa visão em seus livros The Reach of the Mind [O Alcance da Mente] (1947) e New World of the Mind [Novo Mundo da Mente] (1953), além de outras publicações.
Estas idéias não vieram somente de resultados de seus experimentos, como ele próprio, Rhine (1947) argumentou. Rhine interessou-se por religião antes em sua vida e planejou ser um ministro (pastor), e então cedo foi levado a crer no não-físico. As idéias de Rhine nessa questão podem ser encontradas na auto-biografia de Louisa Rhine (1982) sobre a sua vida com J. B., Something Hidden. Mas Rhine também foi influenciado pelo espiritualismo e seus fenômenos. Estava ciente dos escritos e idéias de alguns espiritualistas como Artur Conan Doyle, ambos ele e Louise sabiam que os espiritualistas acreditavam que o ser humano é mais que o seu corpo, que havia um componente no ser humano que não dependia das limitações físicas. Voltando em 1865 [As far back as 1865] o espiritualista britânico Benjamin Coleman disse: “Uma vez reconhecido que o espírito é uma entidade viva quando separada do seu corpo de carne, tem uma poder dinâmico fora da matéria, e a grande dificuldade que permanece [enshrouds] na mente materialista se desfaz” (Coleman, 1865, p.128). Similarmente, T. P. Barkas (1876) argumentou nas páginas do jornal Spiritualist: “Se este fenômeno é verdadeiro ele sugere muitas reflexões importantes. A mente não é uma mera propriedade molecular ordinária organizada de matéria, secretada pelo cérebro… mas é independente de qualquer cérebro físico …” (p.261). Como mencionado na introdução, escritores posteriores tais como Bozzano (n.d.b), Flammarion (1900), e Myers (1903) todos argumentaram em linhas similares.
Rhine estava familiarizado com alguma dessa literatura. Em uma carta que escreveu para o presidente da American Society for Psychical Research em 1923 ele disse: “Tendo lido Human Personality (Personalidade Humana) de Myers e alguns outros livros parecidos, eu fiquei profundamente impressionado com a importância desse assunto para a raça humana” (L. E. Rhine, 1982, p. 92). Rhine tinha um claro conceito tradicional que certamente deu-lhe esperança de encontrar respostas acerca da natureza do ser humano, e não fisicamente. A idéia posterior foi de fato o principio central das idéias de Rhine sobre a natureza de Psi (Beloff, 1982; Iannuzzo, 1983).
O Espiritualismo e a Complexidade do Fenômeno Psíquico
A sobrevivência influenciou a pesquisa psíquica de outra forma, mais sutil. Uma delas é a contribuição de espiritualistas para nosso entendimento da mediunidade e outros fenômenos. Algumas vezes nós pensamos que espiritualistas tiveram uma visão simplista e unitarista sobre a natureza do fenômeno psíquico. Bruno Fantoni (1974), em Magia y Parapsicologia, escreveu:
No inicio os espíritas argumentaram que todos os fenômenos paranormais eram produzidos por seres desencarnados … Com o tempo, eles começaram a admitir a possibilidade de uma colaboração entre o espírito do além e do médium … Finalmente, eles foram forçados a admitir a existência do fenômeno paranormal sem a intervenção do morto e que mesmo nestes fenômenos que originados supostamente no além podia haver elementos vindo do inconsciente dos vivos.
[pp.319-320, minha tradução]
Enquanto a visão de Fantoni pode representar muitos indivíduos, eu acredito que um estudo das primeiras literaturas suporta uma visão modificada desse processo. Isto é, os escritos de alguns espiritualistas mostra uma consciência das outras explanações teóricas do fenômeno da sobrevivência que não agentes desencarnados. De fato, a literatura espiritualista contém uma rica discussão intelectual das diferentes possibilidades. A história da pesquisa psíquica algumas vezes tem sido escrita como a historia do triunfo da ciência sobre as armadilhas do Espiritualismo, mas ha um espaço para argumentar que, desde o começo, o Espiritualismo ofereceu-nos uma variedade de explicações alternativas para o fenômeno em questão. Mais importante, o Espiritualismo forneceu o contexto para o desenvolvimento de muitas idéias que ativamente formaram a pesquisa psíquica conceitualmente. Uma delas foi a idéia psi-entre-vivos como explicação de mediunidade.
Ideias Psi-entre-vivos para explicar Mediunidade
Em seu Journal of Parapsychology no artigo “Parapsicologia, Then and Now,” Louisa E. Rhine (1967) sugeriu que explicações através de ESP entre vivos ficaram somente disponíveis ou ficaram somente realísticas após o trabalho experimental que começou nos anos de 1920s. Rhine teve depois particular atenção para o trabalho na universidade Duke. Na sua visão: “Não foi falta de método que levou ao fim a era da pesquisa da mediunidade na questão da sobrevivência. Foi o estabelecimento da ESP que o fez” (p.238). L. E. Rhine foi mais longe ao dizer que os interessados e otimistas sobre a sobrevivência na década de 1920 ” não poderiam então ter percebido que uma explanação alternativa existia” (p.248). Nesta visão ESP não era bastante bem estabelecida nos dias anteriores para ser uma efetiva contra-explicação para o conteúdo de comunicações mediúnicas verídicas. Há alguma verdade nisto já que posteriores experimentos ESP forneceram mais evidência desse fenômeno e informações adicionais sobre esses trabalhos. Mas Louisa Rhine exagerou, especialmente quando ela disse que não existiam explicações alternativas. Rhine não se deu conta do fato que no inicio do Espiritualismo e da pesquisa psíquica houve uma longa tradição de usar ESP como explicação para dar conta das comunicações mediúnicas. O fato que a evidência para ESP tornou-se melhor depois não está em discussão aqui. O que é importante em termos históricos é que observadores de médiuns convenceram-se da validade das explicações ESP, um processo que era uma realidade para eles. Eu estou argumentando aqui que as primeiras literaturas forneceram exemplos de explicações de psi-entre-vivos, mostrando claramente que essas idéias originaram-se dos próprios espiritualistas, e em alguns casos, de não-espiritualistas que acreditavam na sobrevivência.
Em seu livro An Exposition of Views Respectin the Modern Spirit Manifestations, Adin Ballou (1853) escreveu: “Eu acredito que espíritos dos mortos causam muito desses fenômenos, mas não todos eles. Eu acredito que espíritos encarnados, - i.e., a mente do médium, ou a mente de outras pessoas ao redor do médium - algumas vezes atravessam, corrompem, peculiarizam, ou modifiquem as manifestações e a produção das comunicações” (p.3). Para Ballou estava claro que a mente de indivíduos ao redor do médium poderia influenciar o conteúdo da comunicação, um processo que ele refere-se como em “influências mesméricas ou psicológicas, do controle de mentes próximas [ao médium]” (p.29)
Estas idéias não são exclusivas de Ballou. Elas também podem ser vistas em Andrew Jackson Davis (1853). Em seu livro, The presente Age and Inner Life, Davis escreveu que “”pertencendo aos atributos extraordinários da mente do homem, muitas experiências são por alguns indivíduos consideradas como espiritualmente originadas; quando em verdade, só são causados pelas leis naturais de nosso ser…” (pp. 160-161). Davis apresenta uma tabela em seu livro que lista as possíveis causas do fenômeno mediúnico. Em sua visão 40% tem origem nos “espírito dos mortos”.” O resto inclui fraude, explicações neurológicas ou histéricas, “psicologia-nervosa” ou imaginação, e “simpatia cerebral” ou doenças epidêmicas. Dezoito por cento refere-se ao que chamamos de habilidades psíquicas entre vivos. Isto inclui “eletricidade vital” vindo do corpo dos médiuns e clarividentes. Enquanto essas figuras, como a maioria dos escritos de Davis, foram obtidos através de inspiração de clarividência, o ponto importante aqui é que um líder do novo movimento espiritualista americano oferece explicações alternativas de mediunidade que não seja baseada em espíritos.
Davis argumentou que uma das causas principais da aparente contradição em comunicações mediúnicas - ou seja confusões e aparentes erros - era a recepção simultânea de duas diferentes fontes: espíritos e a mente de pessoas vivas. Ele escreveu: “Um médium pode obter pensamentos de pessoas sentadas no circulo, ou de uma mente em local distante do globo …, e ainda estria totalmente equivocado a respeito da sua fonte” (p.202).
Nos anos posteriores, Henry J. Atkinson (1871, p.535), em um artigo intitulado “Science e Spiritualism”, argumentou que era importante ser claro sobre o agente por trás do fenômeno. Isto é, foi uma ação de espíritos dos mortos ou espíritos dos vivos? Um autor posterior comentou o problema envolvido no estabelecimento de identidade do espírito. Ele disse: “A dificuldade a respeito da identidade do espírito são várias; como por exemplo, o dobro das questões do espírito pessoas vivas [as for instance, in the double, or Spirit-issues from the living person]; de clarividência e transferência de pensamento, ou conhecimento ou transferência de memória …” (Atkinson, 1882, p.249).
O espiritualista inglês William Harrinson argumentou que os pensamentos dos participantes poderiam afetar o conteúdo da comunicação mediúnica. Ele refere-se à “leitura de pensamento, ou … a influencia de uma mente em outra” (Harrison, 1873 p. 434) para dar conta do fenômeno.
Helen Dallas (1916), outro escritor que pode ser descrito como um espiritualista, em seu livro Objections to Spiritualism Answered [Objeções ao Espiritualismo Respondidas] comenta sobre o “fato que pensamentos recebidos telepaticamente daqueles ainda na carne pode misturar-se com, ou ser confundido por mensagens do desencarnado” (p.70). Similarmente, o conhecido pesquisador francês e teórico Gustavo Geley (n.d.) disse que a comunicação mediúnica algumas vezes depende de elementos “evidentemente tomados do médium e do participante da seção, todos eles em proporções variadas” (p. 102, minha tradução)
Outro exemplo interessante foi Ernesto Bozzano, provavelmente o mais conhecido espírita europeu do seu tempo. Bozzano disse mais de uma vez que ESP podia dar conta de alguns casos. Em seu livro Animism and Spiritism [Animismo e Espiritismo], ao referir-se ao fenômeno sugestivo de identidade do espírito, Bozzano disse que: “muitos episódios são explicados por manifestações anímicas” (Bozzano, n.d. a, p.47). Em seus estudos de assombrações, Bozzano (1919/1925) favoreceu explicações relatadas por agentes desencarnados para a maioria dos casos. Entretanto, ele aceitou explicações telepáticas entre vivos para um pequeno numero de casos. Em sua visão, porque “nem todas manifestações entre vivos são de origem telepáticas … também nem todas manifestações de assombrações tem origem nos espíritos” (p.305, minha tradução).
Considerando poltergeists, Bozzano também aceitou algum agente entre vivos. Ele escreveu que:
Há um pequeno número de casos que pode ser explicado através da hipótese “anímica” … a emissão esporádica de telecinese ou energia mediúnica controlada por uma rudimentar origem subconsciente. Alguns casos de pequena complexidade podem ser classificados nessa categoria,… mas pode ser dito que, em geral, manifestações ‘poltergeist’ não são nunca completamente anímicas e nem completamente ‘espíritas’ …
[Bozzano, 1919/1925, p. 311, minha tradução].
Outros acreditaram que o pensamento dos participantes podia afetar o fenômeno da materialização. Assim, por ex., no Spiritualist Newspaper, G. W. Stock escreveu que a forma que aparece nas sessões eram “muito maleável e capaz de ser moldado pelos pensamentos e afeições dos participantes” (Stock, 1877, p. 188). Uma visão similar foi citada em artigo anônimo, “A influencia dos participantes sobre as Manifestações Espirituais,” o qual foi presumidamente escrito por H. Harrison ( A influência, 1877).
De fato, as publicações espiritualistas apresentaram uma variedade de idéias sobre a natureza das materializações as quais salientavam a complexidade das discussões, que não eram limitadas a idéia de uma agente desencarnado. Vários escritores especularam sobre a exteriorização do duplo do médium para dar conta da materialização (e.g., Coleman, 1876; Kislingbury, 1876a, 1876b; Reimers, 1876). Um autor escrevendo sobre as materializações de Katie King disse que Katie “não é um espírito independente, mas o espírito, ou ‘duplo’ do médium ….” (Spirit Forms, 1873, p.452). Ilustrando a variedade de idéias sobre materializações a esse tempo, a espiritualista Emily Kislingbury (1876a, 1876b) sugeriu que a transfiguração do médium poderia explicar alguns dos supostos casos de materializações.
Outra maneira de ver a contribuição teórica do espiritualismo é o contexto em que céticos em sobrevivência também desenvolveram importantes modelos teóricos. Houve muitos escritores que sugeriram que uma substancia fluídica emanada do corpo do médium - magnetismo animal, Od, forças nervosas - poderiam explicar muito dos fenômenos mentais, e em especial, os fenômeno físicos do espiritualismo, sem recorrer a um agente espiritual. Uma variedade de céticos da hipótese de agentes espirituais postulam um modelo exploratório diferente. Eles acreditam que o fenômeno poderia ser explicado por uma força vindo do sistema nervoso do médium. Esta literatura incluiu Spirit Manifestations Examined and Explained [Manifestações de Espíritos Examinados e Explicados] de John Bovee Dods (1854), Philosophy of Mysterious Agents [Filosofia dos Misteriosos Agentes de Edward] C. Rogers (1853), Modern Mysteries Explained and Exposed [Misterios Modernos Expostos e Explicados] de Asa Mahan (1855), e Spiritualism Tested [Espiritualismo Testado] de George Samsin (1860). Algum tempo depois ainda no século XIX, vários outros autores como Edward W. Cox (1872), Gerry G. Fairfield (1875), e Eduard von Hartman (1885), continuaram essa linha de pensamento na qual eles explicavam o fenômeno sem recorrer ao agente desencarnado. Esta linha de raciocínio foi continuada depois já no século XX por pesquisadores como Joseph Maxwell (1903/1905), Enrico Morselli (1908), Schrenck-Notzing (1920/1925), e René Sudre (1926). Todos esses escritores que eu mencionei representam o início do que alguns autores modernos chamam de explicação super-psi para o fenômeno da sobrevivência.
Muitas das controvérsias que surgiram dessas idéias foram ferramentas que esboçaram as suposições de espiritualistas e seus opositores. Em seu esboço do livro Ten Years Investigations into Phenomena if Modern Spiritualism (Dez Anos de Investigações de Fenômenos do Moderno Espiritualismo) Thomas P. Barkas (1862) argumentou que neste conceito de forças nervosas “o homem é convertido em uma espécie maquina eletro-odilico-cerebro-vertebral” (p.65). Na visão de Barkas estas idéias de força psíquica não eram suficientes para explicar o fenômeno. Muitos críticos do modelo da força psíquica expressaram seu ponto de vista. Eles questionaram a habilidade dessas forças para produzir efeitos inteligentes, tais como temos visto em alguns movimentos de objetos e no fenômeno de materializações (ex. Aksakof, 1890/n.d; Dr. Dods e Spiritualism, 1855; Força vs Espiritualismo, 1867; Mary Janr, 1863. Review of What Am I?, 1874).
Entretanto, é importante reconhecer que os próprios espiritualistas também aceitaram a existência da força fluídica, mas enfatizando que eram manipuladas pelos espíritos dos mortos. Um influente conceito foi o do perispírito popularizado na França por Allan Kardec, o fundador do espiritismo. No seu conhecido “Livro dos Espíritos,” publicado em 1857, Kardec (1875) apresenta as comunicações mediúnicas referindo-se a um “fluido universal que forma a parte intermediaria entre espírito e matéria…” (p.9). Esta substância foi chamada de perispírito. Ele faz a interação possível do espírito com o corpo e era o veiculo que os espíritos usavam para criar aparições e alguns fenômenos como movimentos de objetos. Em um livro posterior, Kardec (1876) deu mais detalhes sobre a produção dos fenômenos psíquicos via o perispírito. Ele escreveu:
Quando um objeto é posto em movimento, deslocado, ou elevado ao ar, o espírito não o prende, empurra-o, nem levanta-o, como nós fazemos com as nossas mãos; o espírito, por assim dizer, satura-o com seus próprios fluidos combinados com os do médium, e o objeto, sendo assim vivificado por um momento, age como um ser vivo agiria … [e] segue o impulso comunicado a ele pela vontade do espírito.
(Kardec, 1876, pp.76-77).
Em um “discurso de inspiração” sobre o tópico do Espiritualismo como uma ciência o qual foi publicado no Spiritualist Newspaper, o médium de transe britânico e orador em transe J. J. Morse (1876) discutiu idéias similares às de Kardec sobre as noções do perispírito. Na França, esta linha de pensamento foi mais articulada por Gabriel Delanne (1923) e Leon Denis (1922). Semelhantemente, o bem conhecido espiritualista britânico e editor J. Burns argumentou em 1872 que há uma força em constante operação nos seres vivos que pode sair do corpo em determinadas condições e com certos indivíduos que assim produzem fenômenos como movimentos de objetos. Esta energia era a mesma que a energia nervosa e transportada à vontade ao organismo humano[This energy was the same as nerve energy and it conveyed the will to the human organism]. Na visao de Burns:
“A peculariedade do médium está nele exalar um magnetismo com o qual a atmosfera espiritual envolve o espírito podendo tornar-se inter-esferico [intersphered] …, o de um tornando a envolver-se com o do outro … “
(Reed & Woodward, n.d., p.33).
Em alguns panfletos que publicou, Burns incluiu páginas com instruções sobre como conduzir as seções. Um delas foi chamada “Como Investigar o Fenômeno Espiritual.” Esta página dizia: “Os fenômenos são produzidos por uma força vital emanada pelos participantes, os quais os espíritos usam como um link de conexão entre eles e os objetos” (Appendix, n.d., p.51).
A literatura espiritualista inclui muitas outras menções dessas forças. Em seu livro The Debatable Land, o espiritualista americano Robert Dale Owen (1871) refere-se a ” exudações invisíveis das organizações humanas ” (p.404) para dar conta do fenômeno da materialização. Em referencia ao vapor observado em sessões de materialização, William Station Moses disse no encontro da British National Association of Spiritualists em novembro de 1877: “É o sustento universal, a linha material usada em todas operações desta natureza … é a força vital do médium” (Moses, 1877, p.254).
Escritores com orientação espiritualista também discutiram estas idéias no século XX. Na Inglaterra, em seu livro Spirit Intercourse, James Hewat McKenzie (1916) escreveu que era uma “matéria psico-plástica” que sai do corpo do médium para formar as materializações. Na França, Geley argumentou que o ectoplasma consiste da ” descentralização anatomo-biológica no corpo do médium e um externalização de fatores descentralizados no estado amorfo, sólidos, líquidos ou vaporoso” (Geley, 1924/1927, p.358).
Como podemos ver estas idéias de forças e fluidos não ocorreram somente para os escritores anti-espiritualistas. Os Espiritualistas estiveram ativamente envolvidos na discussão e desenvolvimento dessas idéias do início até os dias de hoje. Este é um ponto importante devido a esta noção - que a força vem do corpo do médium para produzir o fenômeno - foi uma dos principais modelos teóricos da pesquisa psíquica entre o século XIX ate os anos de 1920s (Alvarado, 2001). Porque esse conceito foi identificado com explicações de agentes não-desencarnados, precisamos nos lembrar que não foram somente os céticos que contribuíram para a literatura ao esboçar essas influentes idéias.
Influencias Psicológicas nas Comunicações Espíritas
Espiritualistas sempre reconheceram que o médium pode influenciar as comunicações de diferentes formas. Em um artigo chamado “Influencia Cerebral nas Revelações” publicado no jornal americano The Shekinah, S. B. Brittan (1853) argumentou que as comunicações mediúnicas poderiam ser influenciadas pelo pensamento dos médiuns. Brittan comentou: “Em todas as épocas, revelações do mundo espiritual foram essencialmente modificadas pelas características físicas e mentais das pessoas através das quais elas foram dadas à humanidade. No processo de influxo, os elementos de duas mentes são misturados, e a revelação é o resultado de suas ações conjuntas” (pp.39-40).
No livro de Andrew Jackson Davis (1853) o autor comentou sobre a influencia da mente do médium nas comunicações, especialmente refletindo a educação e os costumes do médium. A mente do médium, escreveu Davis, “é quase certo que inconscientemente altera, modifica, e arranjar todas as impressões, de qualquer fonte recebida, invariavelmente em acordo com o estado e o estilo de conhecimento próprio e de cultura individual” (p.203). Esta influência poderia ser completamente indetectável pelo médium.
Em seu Espiritismo Experimental: O Livro dos Médiuns, o guia para Médiuns e para Evocações, Kardec (1876) escreveu sobre as limitações impostas da capacidade de comunicação dos espíritos com os recursos do médium, incluindo aspectos tais como conhecimento das línguas. Outros também falaram sobre essas questões (ex. Ballou, 1853; Dallas, por exemplo, argumentou que, mesmo durante o transe, a “mente do médium … não é um espelho inanimado sobre o qual outras personalidades podem facilmente gravar as impressões de seus pensamentos; Pode ser assim comparado como um oceano movido por correntes internas e perturbado pelos ventos externos” (p.65).
Houve também uma discussão por autores tais como Aksakof (1890/n.d.) e Delanne (1902), os quais, apesar de defenderem o espírito como agente, admitiam que mecanismos dissociativos poderiam dar conta de alguns fenômenos. Em Recherches sur la Médiumnité (1902) de Delanne, em um estudo focando a escrita automática, ele apontou que poderia haver diferentes explicações para comunicações mediúnicas. Embora ele acreditasse que a fonte da comunicação poderia ser distinguida pelo foco do contexto, mesmo nos melhores médiuns o puro automatismo psicológico poderia estar misturado com mediunidade (p.500). Similarmente, Geley argumentou que, enquanto em transe, a capacidade do médium de livre arbítrio era diminuída até o ponto que a comunicação mediúnica poderia ser afetada por ” sugestões mais ou menos voluntárias dos participantes e a vontade de refletir seus próprios pensamentos” (Geley, n.d., p.108, minha tradução).
Nos Estados Unidos, James H. Hyslop era bem conhecido por seus sistemáticos e detalhados estudos de mediunidade mental. Em seu livro, Contato com o Outro Mundo, Hyslop (1919) argumentou que mesmo nas comunicações com entidades espirituais pode haver contaminação vinda dos vivos: Ele escreveu:
Não está nada claro para os investigadores o fato de que todas as mensagens são afetadas pela mente do médium, normal ou subliminal, de acordo com as circunstâncias em que uma comunicação ocorre. Se a mensagem vem pela consciência normal, a forma da mensagem será profundamente afetada. Memórias, interpretações, e a língua determina a forma da mensagem. Em alguma extensão a vontade subconsciente ira afetá-la da mesma maneira em um transe, quando a consciência normal está suspensa.
[Hyslop,1919, p. 107].
Hyslop (1906a) devotou seu livro, Borderland of Psychical Research, a aqueles fenômenos que não eram parapsicológicos mas que tinham a aparência de serem. Entre estes incluiu problemas da memória, alucinações, e uma variedade de fenômenos dissociativos como personalidades secundárias. O livro, Hyslop disse, pretendeu preparar os estudantes futuros do supernormal para discriminar entre o “normal e o anormal, por um lado, e entre estes dois e o supernormal por outro” (Hyslop, 1906a, p. viii). Ele afirmou claramente que o conhecimento de mecanismos psicológicos era essencial à avaliação apropriada dos fenômenos que podem ser indicativos do supernormal em geral, e da sobrevivência em particular. Em muitas ocasiões, insistiu, não era necessário ir além das explanações psicológicas convencionais. Como ele escreveu:
Não é suficiente que um fenômeno deva ser involuntário ou produzido inconscientemente. Deve ser muito mais para obter as credenciais de supra-normal. Deve carregar o selo do conhecimento adquirido por algum outro processo do que a experiência sensorial. Deve também mostrar a evidência de que mais do que imaginação pode produzi-lo em suas criações subliminais, e nós não temos no presente nenhum critério para determinar os limites desta função. Não importa que características da personalidade independente são exibidas por estados secundários ou pelo sujeito dos fenômenos alegados de terem uma fonte externa, se não mostrarem evidências da identidade pessoal de pessoas falecidas são concernentes à ação subliminal. Doravante a personalidade secundária explica muitos fenômenos que receberam anteriormente uma outra explanação, e o critério para a crença nos espíritos é feito de forma mais rigorosa.
[Hyslop, 1906a, p. 284].
Em um outro livro, Enigmas of Psychical Research [Enigmas da Pesquisa Psíquica], Hyslop (1906b) afirmou que personalidade secundária era um fenômeno mais comum do que o “agente espiritual”(p.343). O que é interessante sobre Hyslop é que ele contribuíu ativamente também ao estudo das capacidades subliminais, aos processos que acreditava interagirem com o supra-normal. Um exemplo é o estudo de Hyslop (1913) sobre as funções do subconsciente no qual sumariou e criticou as idéias de Myers sobre a mente subliminal. Outros estudos ao longo destas linhas incluem as análises de Hyslop das supostas comunicações “marcianas” da Sra. Smead (Hyslop, 1918), e seu estudo de fraude inconsciente na produção de fenômenos físicos na mediunidade da Sra. Burton (Hamilton, Smyth, & Hyslop, 1911).
Um outro exemplo interessante de como os espiritualistas contribuíram com explanações psicológicas de comunicações mediúnicas está na reação de alguns espiritualistas às idéias de Kardec sobre a reencarnação. A tese da reencarnação foi uma parte proeminente do sistema de Kardec. Kardec baseou seus ensinos sobre o espiritismo e a reencarnação nas comunicações mediúnicas (Kardec, 1875, 1876). Mas a idéia da reencarnação não foi bem recebida por muitos leitores, particularmente na Inglaterra. Em 1875 um número de discussões da reencarnação foi publicado bem conhecido English Spiritualist Newspaper (por exemplo, Home, 1875; J., 1875; Kislingbury, 1875; Rouse, 1875). Nas páginas desta publicação, D. D. Home (1875) ridicularizou o conceito baseado na presença demasiada de muitas pessoas que alegam ter sido Napoleão e a ausência de pessoas que alegam vidas precedentes comuns. Mais importante, comunicações mediúnicas com um conteúdo reencarnacionista foram atacadas por dois espiritualistas bem conhecidos: Alexander Aksakof e William Harrison.
Aksakof (1875) criticou a confiança de Kardec nos médiuns psicógrafos porque eles eram bem conhecidos por “passar bem facilmente influência psicológica ou idéias preconcebidas… “(p. 75). Sugeriu que conteúdo reencarnacionista de tais escritas automáticas não eram verdadeiramente espirituais, mas dependia preferivelmente do impacto da sugestão do médium.
Um ataque muito mais forte foi publicado em um importante artigo não assinado Spiritualist Newspaper em 8 de outubro, 1875. Presumivelmente, William Harrison, o editor da publicação, escreveu o artigo. Como o autor afirmou:
Praticamente essa doutrina não tem sido ensinada, até o momento atual, por qualquer médium residente na Inglaterra, e aquelas doutrinas que tem sido ensinadas aqui geralmente (com alguns exceções impressionantes) foram fortemente coloridas pelas opiniões do médium, ou dos participantes; em resumo, pode ser colocado como princípio geral que aproximadamente noventa por cento das mensagens dos espíritos contenham mais dos pensamentos do médium do que dos pensamentos do espírito comunicante. Isto ocorre inconscientemente ao médium, claro… Nós bem sabemos que se a doutrina da reencarnação fosse bem agitada na Inglaterra, os espíritos começarão a ensiná-la, razão pela qual as mentes dos vários médiuns serão postas a zumbir pelos argumentos sobre o assunto levantado pelas pessoas ao redor deles, depois do qual haverá abundância de mensagens de espíritos sobre a reencarnação.[We know full well that if the reincarnation doctrine should be agitated in England plenty of spirits will begin to teach it, the reason being that the minds of the various mediums will be set buzzing by the arguments on the subject mooted by persons around them, after which there will be plenty of spirit messages about reincarnation] [Livro dos Espíritos de Allan Kardec 1875, p.170 ].
Outra especulação anônima, provavelmente escrita por Harrison, pergunta: “Quantas revelações no livro de Allan Kardec tiveram sua presença no grupo?” (The Inductive Method [O Método Indutivo], 1875, p.314). A questão principal aqui não é a reencarnação, mas a crença de alguns espiritualistas de algumas idéias expressadas nas comunicações dos espíritos (nesse caso a reencarnação) poderiam ser produzida artificialmente como uma função de sugestão sobre o médium ou através das crenças do próprio médium.
Comunicacoes Mediúnicas entre vivos
Outra contribuição do contexto da sobrevivência para o entendimento da complexidade do fenômeno Psi foi a discussão das comunicações mediúnicas entre vivos. Longe de ser ignorada pelos espiritualistas, essas comunicações foram discutidas na literatura espiritualista desde o principio. Uma das primeiras menções para esse fenômeno aparece no livro de Ballou mencionado anteriormente. Ele escreveu:
“As repostas foram dadas, - fornecendo seus nomes, relacionamento com os vivos, e varias comunicações, - mais tarde pode-se ver que pessoas tomadas como mortas estavam vivas na carne!”
(Ballou, 1853, p.29).
Em suas Letters and Tracts on Spiritualism [Cartas e Tratados do Espiritualismo], Judge John Worth Edmonds (11874) discutiu a existência desses casos. Em uma carta de outubro de 1857, Edmonds menciona um caso de uma comunicação de um homem que não parecia ter mais de 50 anos. Ele resumiu o caso como se segue:
Eu não o via há vários anos; não estava em meu pensamento à época, e ele era desconhecido ao médium. Ele ainda se auto identificou como inconfundível, não somente por sua características peculiares, mas pela referencia a questões conhecidas somente por ele e por mim”
(Edmonds, 1874, p.116).
Tempos depois, Allan Kardec (1876) mencionou a evocação de espíritos de vivos. Tanto Kardec quanto sua tradutora Anna Blackwell, apresentaram casos de evocação de espíritos de vivos (Kardec, 1876, pp. 350-353). Na visão de Kardec, obtidas através de comunicações mediúnicas:
“O momento mais favorável para a evocação de uma pessoa encarnada é durante o seu sono natural; porque seu espírito, estando relativamente livre, pode vir tão facilmente ao evocador quanto ir para algum outro local”
(Kardec, 1876, p.345) [9].
Artigos posteriores publicados na década de 1870 por outros autores discutiram a existência da comunicação entre vivos. Isto inclui Nehrer (1874) em “Apparitions of Incarnated Spirits” [Aparições de espíritos encarnados], e “The Double” [O Duplo] (1875) de Damiani, ambos no jornal Human Nature.
[9] Os casos de Blackwell e Kardec - e outros exemplos de evocação de espíritos de vivos no Jornal Revista Espírita (Etudes, 1860/2001) por Allan Kardec - não eram de forma nenhuma evidenciais. Outros, no entanto, eram (Revisões desses casos aparecem em Bozzano, n.d.b; Curnow, 1927; Dallas, 1924).
Em 1881, no jornal Light [Luz], George Wyld escreveu:
“Espíritos de vivos podem, sob certas condições, entrar no mundo espiritual e agir em todos aspectos como se eles fosse espíritos emancipados da carne.”
Na década de 1890 o espiritualista britânico William T. Stead praticou a escrita automática (Stead, 1893a, 1893b, 1894). Ele recebeu mensagens de pessoas supostamente falecidas e vivas também. Um exemplo desse automatismo telepático foi apresentado em seu pequeno livro How I Know that the Dead Return [Como Eu Sei Que Os Mortos Retornam], publicado em 1909. Uma senhora amiga de Stead estava num fim de semana em Haslemere, cerca de trinta milhas de Londres. Na segunda-feira, Stead dispôs-se a usar sua escrita automática para ver se ele descobria se ela havia deixado Londres. Ele recebeu a seguinte mensagem:
Eu sinto muito dizer-lhe que eu tive uma experiência muito dolorosa, da qual eu estou envergonhada para falar. Eu deixei Haslemere em 2.27 p.m. em uma carruagem de segunda classe, na qual haviam duas senhoras e um cavalheiro. Quando o trem parou em Godalming as senhoras desceram, e eu fiquei só com o senhor. Apos o trem partir ele saiu do seu assento e aproximou-se de mim. Eu fiquei alarmada e repeli-o. Ele continuou a aproximar-se, e tentou me beijar. Eu fiquei furiosa. Nós brigamos. Eu peguei seu guarda-chuva e bati nele, mas quebrou, e eu estava com medo que ele pudesse me dominar, quando o trem começou a sair lentamente da Estação Guilford. Ele lutou, afastou-se de mim, e antes que o trem tivesse parado na plataforma ele pulou e saiu correndo. Fiquei muito chateada mas fiquei com o guarda-chuva.
[Stead, 1909, pp.18-19]
A Senhora confirmou posteriormente a estória com a exceção de um detalhe. O guarda-chuva era dela, e não do atacante.
Outra fascinante contribuição veio do viajante astral Vicent Turvey. Em seu livro, The Beginnings of Seerhip (n.d., ca 1909), Turvey disse que projeta o seu corpo e pode comunicar-se através de médiuns. Foi relatado que os acompanhantes reconhecem Turvey pelo conteúdo da comunicação.
A suposição feita por todos esses autores foi que assim como era possível que os espíritos assim julgados dos mortos podiam se comunicar através de médiuns, também o espírito de pessoas vivas podiam fazer o mesmo sobre condições apropriadas. Estas idéias deveriam ser vistas no contexto de outras crenças. Noutras vezes muitos escritores tem discutido o conceito da excursão da alma, ou do duplo humano. Durante o século XIX alguns autores como Crowe (1848), Kardec (1876), Moses (M.A. Oxon, 1876), Neher (1874), e Owen (1860) discutiram a idéia e apresentaram casos de tais fenômenos como aparições dos vivos. Claramente se acreditou que o espírito dos vivos podiam fazer coisas similares aos espíritos dos mortos.
A discussão desses incidentes ilustra quanto interesse na sobrevivência em geral, e no Espiritualismo em particular, contribuiu para o entendimento e complexidade das comunicações mediúnicas.
Observações Conclusivas
Eu argumentei neste artigo que o conceito da sobrevivência, refratado através das lentes do espiritualismo e da prática da mediunidade, contribuiu num contexto condutivo para o desenvolvimento de diferentes aspectos da parapsicologia. Enquanto algumas coisas são bem conhecidas, tentei apresentar materiais que geralmente não são discutidos em nossa literatura.
Tanto a fundação da SPR e o envolvimento precoce de J. B. Rhine em Parapsicologia podem, em grande parte, ter traçado conceitos sobre a sobrevivência e sobre a questão maior da natureza do ser humano. Para a SPR a idéia da sobrevivência teve uma influência positiva nas pesquisas e na teoria. Isto é, os primeiros pesquisadores da SPR e apropriaram de fenômenos como as aparições, casas assombradas e mediunidade do contexto da sobrevivência que o Espiritualismo apresentou na Inglaterra e isso formou a agenda de pesquisa da Sociedade.
No caso de Rhine, não há duvida que, em larga extensão, o interesse na sobrevivência levou-o para esse campo e para a Duke University. Mas eventualmente teve um efeito “contrário”. Que é, a sobrevivência levou-o depois para o trabalho em ESP experimental não relacionado com a idéia de vida apos a morte e, de fato, J. B. Rhine eventualmente chegou a conclusão que a sobrevivência era um problema não verificável. Este é um exemplo de como uma idéia particular ou contexto pode influenciar no curso da historia contribuindo para um efeito diferente do que era esperado. Então, assim como a mediunidade influenciou tanto o desenvolvimento do conceito da mente subconsciente (Ellenberger, 1970), quanto alguns dos diagnósticos psiquiátricos (Le Maléfan, 1999), a questão da sobrevivência influenciou a moderna parapsicologia experimental. Eu não vou afirmar que o contexto da sobrevivência foi o único fator que guiou a “nova” parapsicologia que Rhine e associados desenvolveram através de seus trabalhos experimentais (p.ex., Mauskopf & McVaugh, 1980; L. E. Rhine, 1971). Mas foi certamente uma das forças iniciais principais e deveria ser reconhecido como tal.
[10] Para discussões sobre as idéias de Rhine sobre sobrevivência e sua pesquisa ESP veja Chari (1982) e Palmer (1982).
As contribuições dos espiritualistas nessa empreitada foi mais direta. Entre essas houve discussões de Psi entre vivos e da explicação psicológicas para o fenômeno, bem com os registros da existência da comunicação mediúnica entre vivos. Espiritualistas influenciaram ativamente a construção desses conceitos, e posto mais amplamente, contribuíram para a consciência da complexidade do fenômeno Psi.
Outro exemplo de um efeito “contrário” foi o trabalho inicial de Myers com a SPR. Cedo em sua carreira Myers publicou artigos que sugeriam que o automatismo e a telepatia podiam dar conta de alguma suposta evidência para a sobrevivência em comunicações mediúnicas (p.ex. Myers, 1884). Neste estagio da sua carreira a idéia da sobrevivência levou Myers a desenvolver uma psicologia do subliminar que, enquanto incitada pela sobrevivência, não adotou tal explicação para o fenômeno. Enquanto Rhine abandonou o estudo de médiuns, Myers continuou a fazê-lo. Mas como Rhine, Myers inicialmente não acreditava na sobrevivência. Isto foi mudado depois em sua carreira (p.ex. Myers, 1903).
Há outros efeitos da sobrevivência diretos, indiretos e não esperados, que eu não discuti. Alguns podem ser o desenvolvimento da metodologia de livre resposta e estudos instrumentais. Os primeiros métodos de análise de livre resposta poderiam ser vistos como uma conseqüência de tentativas para avaliar a sobrevivência pelo estabelecimento da presença de informações verídicas. O uso de instrumentos não foi desenvolvido diretamente pela idéia da sobrevivência, mas foi certamente motivado pelo estudo da mediunidade.Tais idéias aguardam estudo futuro.
Alguns podem dizer que o inicio da parapsicologia aconteceu quando o campo esteve apto a conquistar espaço suplantando supersticiosas idéias como sobrevivência, e tais primitivas e ineficientes metodologias de estudo de seções. Mas há uma forma diferente de ver esse desenvolvimento. Em vez do pensamento de que a parapsicologia progrediu por ter descartado o metafísico e o espiritual, podemos afirmar o oposto. A mudança ocorreu em parte graças à contribuição de idéias tais como a sobrevivência à morte corporal, e não simplesmente a despeito delas.
This is similar to the suggestions of some historians of science and medicine as regards the contribution of the role of the Hermetic tradition, mesmerism, and phrenology to science and medicine. The way the influence was transmitted and the way in which it was received is secondary to this argument. The point is that we should be careful in accepting ideas that present science as the simple conquest over what some regard now as unscientific concepts. Without denying the essential role of research, especially if it is systematic and programmatic, the growth of science cannot be accounted for solely by research findings, and certainly neither can the growth of parapsychology. A variety of such extra-scientific or social factors as the training and personality of scientists, and the views of what is acceptable or not are known to be influential on the course of science. Similarly, such ideas as survival of bodily death have had an effect as well.
Isto é similar à sugestão de alguns historiadores de ciência e medicina quando consideram a contribuição da regra da tradição Hermética, mesmerismo, e frenologia para a ciência e medicina. O modo que a influência foi transmitida e a maneira pela qual foi recebida é secundário para este argumento. O ponto é que temos que ter cuidado em aceitar idéias como que a ciência atual é uma simples conquista sobre o que alguns consideram agora como conceitos nao-científicos. Sem negar o papel essencial de pesquisa, especialmente se é sistemático e programático, o crescimento da ciência não pode ser explicados unicamente por resultados de pesquisa, e certamente também não o crescimento da parapsicologia. Uma variedade de tais fatores extra-científicos ou sociais como o treinamento e personalidade de cientistas, e os pareceres do que é aceitável ou não é sabido ser influente no curso da ciência. Semelhantemente, tais idéias como sobrevivência à morte corpórea possuíram um efeito também.
Naturalmente nós necessitamos ser críticos da influência da sobrevivência. Eu não estou alegando que este foi o único fator nem reivindico que não haja nenhum mérito na mudança do modelo de sobrevivência predominante na parapsicologia para um mais secular baseado em um que relacione a função psíquica às variáveis psicológicas e físicas. Estou somente preocupado em reconhecer os aspectos importantes de nossa historia que são esquecido às vezes por parceiros modernos [11].
[11] Além disso, nós necessitamos recordar que muitos membros do público em geral estão interessados nisto e acreditam na sobrevivência à morte. O ponto é que questões importantes como esta não estão limitadas às opiniões do cientista treinado, porém nós pensamos que os cientistas são capazes de avaliar a evidência.
Os parapsicólogos cientificamente treinados sofrem desta falta de memória histórica por uma variedade de razões. Algum focam em questões tais como a fraude, que eram comuns entre muitos médiuns físicos. Outros focam em problemas metodológicos, tais como as ambigüidades na avaliação da fonte da informação verídica e do papel do acaso dentro das comunicações mediúnicas. Para tais investigadores, é difícil ver além da reputação de fraude e das ambigüidades da evidência da sobrevivência. Nosso passado é percebido sendo muito difícil, muito sujo – para usar o argumento do tubo de ensaio sujo – para ser útil para a pesquisa. Conseqüentemente, não somente a área de sobrevivência é ignorada, mas não há nenhum interesse na aprendizagem sobre os primórdios de nosso campo. Enquanto eu acredito que nós necessitamos ser cuidadosos para não cair em extremos, certamente existe alguma verdade nestas perspectivas.
Além disso, alguns críticos e parapsicólogos modernos vêem conexão entre a parapsicologia e as idéias da espiritualidade e sobrevivência da morte corporal como problemática para nosso campo. James Alcock (1981, 1987) discutiu que os parapsicólogos estão interessados meramente em encontrar a alma e não são reais cientistas. Nesta visão, o interesse no conceito da sobrevivência e na real pesquisa sobre o tópico são vistos como uma validação desta força metapsíquica que diz motivar os parapsicólogos. Mais recentemente, Robert L. Morris (2000) afirmou que a parapsicologia está conectada a de origens metapsíquicas “problemáticas”. Isto, Morris argumenta, é um tipo de problema de relações públicas para a parapsicologia. Se nós pessoalmente encontramos conexões da parapsicologia com o ocultismo, com o espiritualismo, e coisas do tipo, é uma questão que cada um de nós necessita resolver. Os trabalhadores no campo reagem a este problema de acordo com seu treinamento, objetivos e suas visões do propósito do campo. Mas um melindre sobre a sobrevivência e o seu lugar em nossa historia força-nos a reconhecer quão rico é o impacto histórico da sobrevivência na parapsicologia, e quão muito além de nos dar o ponto e uma agenda inicial este impacto, de fato, vai.
Eu espero que eu não seja mal entendido em meus objetivos. Minha finalidade não foi glorificar o espiritualismo nem o conceito da sobrevivência. Eu não estou discutindo que estes eram os únicos fatores agindo. De fato, eu espero que sua influência tornar-se-á mais visível aos parapsicólogos contemporâneos. Meu objetivo é difícil de conseguir porque alguns dos pontos discutidos neste artigo não estão claros a menos que você tenha acesso à literatura difícil de obter. Mas é importante avaliar a história da pesquisa psíquica em que sobrevivência e espiritualismo são somente estágios ao longo da estrada para a parapsicologia científica. Apear desta não ser uma visão completamente incorreta, não é suficiente. Conceitos de sobrevivência em particular e o Espiritualismo em geral não são meros antecedentes nem os meros estágios que foram substituídos. Na verdade são iniciadores ricos e complexos e contribuintes a uma variedade de desenvolvimentos.
Pode-se certamente argumentar que um artigo similar poderia ter sido escrito sobre como a sobrevivência retardou o crescimento da parapsicologia. Eu estou certo que alguns argumentos e exemplos podem ser encontrados para defender esta posição também. Muito mais trabalho necessita ser feito para explorar a influência da sobrevivência no desenvolvimento da parapsicologia em particular, para não mencionar a influência de outras tradições conceituais como dualismo e vitalismo. Uma abordagem pode usar biografias focalizando as vidas de investigadores psíquicos a favor e contra a sobrevivência. Outro trabalho pode investigar questões como o desenvolvimento do conceito da mediunidade e das idéias sobre o processo por trás das comunicações mediúnicas.
Para concluir, é meu desejo que eu tenha tido sucesso em relembrar para meus leitores sobre a importância da sobrevivência para a parapsicologia. Apesar da sobrevivência não ser tão importante hoje como costumava ser na parapsicologia, a influencia passada é um exemplo dos muitos fatores que contribuíram para o desenvolvimento desse campo.
Agradecimentos e Dedicatória
A pesquisa para este trabalho foi possível graças aos ricos recursos da biblioteca da Eileen J. Garrett Library of the Parapsychology Foundation. Eu gostaria de agradecer a Lisette Coly pelas úteis sugestões editoriais.
Quando eu terminava de escrever este artigo a Cidade de Nova Iorque foi atacada por terroristas. Eu gostaria de dedicar o artigo à memória a todas vítimas do ataque.
Parapsychology Foundation,
228 East 71st Street,
New York, NY, 10021.
Abreviação das Referências
Journal of the Society for Psychical Research - JSPR
Proceedings of the Society for Psychical Research - ProcSPR
Journal of the American Society for Psychical Research - JASPR
Proceedings of the American Society for Psychical Research - ProcASPR
Journal of Parapsychology - JP
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Artigo disponível em http://www.survivalafterdeath.org/articles/alvarado/concept.htm
Artigo traduzido por Maurício Mendonça e revisado por Vitor Moura Visoni